19.8.08

Caixa de sapatos

Era uma rua de Lisboa como outra qualquer. Caminhava com os olhos no empedrado, cansada da rotina do trabalho, das conversas maçadoras, da vida sempre igual. Era altura de mudar, pensou, de procurar alegrias, de rir como dantes fazia. Mas, na realidade, não sabia como. Perdera há muito o rumo da felicidade, o destino dos amigos. Perdera-se, há muito, a ela própria. O ritmo dos passos marcava as pedras, umas vezes brancas, outras negras, nos desenhos que subitamente preenchiam o chão. Sim, tenho que mudar, pensou de novo. Este pensamento ia ganhando força e quase tomava forma. A forma de outra mulher, forte e determinada. Corajosa. De repente, viu uma caixa de sapatos sobre um banco de jardim. Uma caixa vermelha e lustrosa que chamava a atenção. Não resistiu a pegar-lhe. Abriu-a com cuidado, receando o interior. Com surpresa viu lá dentro fotografias de dois namorados, amantes, qualquer coisa assim. Beijavam-se, faziam caretas para o fotógrafo, alegres, felizes, desesperadamente felizes. Debaixo da fotografias, um coração de feltro, postais free com mensagens divertidas e um cartão de um restaurante... reconheceu-o pelo nome - era um restaurante caro da cidade. No cartão, um brinde por escrito - "a nós!". Invejou aquela felicidade de caixa de sapatos e prosseguiu o seu caminho, inspirada.