22.3.10

Futebol

Não aceito a violência programada e ensaiada, num desporto que há muito deixou de ser rei. Não consigo aceitar a bestialidade que vejo. Faz-me medo. Faz-me medo esta violência apetecida.

21.3.10

Vem, noite antiquíssima

...
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos.
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...

...


Álvaro de Campos num dia de poesia

18.3.10

E pronto...

... regressámos ao silêncio-muro



à volta, tantos momentos a precisar de um murmúrio.

14.3.10

às vezes...

... gostava que me mostrasses que compreendes que estou ao teu lado

às vezes...
... o teu olhar parte para aquele lugar secreto cuja porta não sei transpor

às vezes...
...tenho a certeza que é possível

às vezes...
... a certeza

mulheres

Neste dia de sol, lembrei-me do cinzento na serra. Mulheres e cabras no frio intenso do Caramulo. No cimo, o zumbido constante das torres aeólicas enquanto a mulher que destestava fotografias, "Ai, sou tão feia!", nos contava sobre dantes, da subida e a descida a pé destes mil metros quase a pique, do isolamento.

E o persistente rumor das hélices preenchia os silêncios, sobrepondo-se ao vento.












A fotografia não tirada foi a daquela mulher, gasta e vestida de negro, tendo as hélices por fundo, brancas e novas. Profundidade de campo: as hélices vão permanecer.

3.3.10

/riu/

O Tejo tem estado triste. Ora encapelado, ora calmo, acinzenta-se sob a chuva. Hoje, o rio subiu pela a Ribeira das Naus, nome antigo que cheira a madeira e a especiarias. Aproveitou a maré cheia e protestou.

Amante

“É melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão.”

Provérbio chinês