Caminho devagar. Na mão, um vaso de begónias vermelhas, vermelho-sangue, vermelho-coração. (Fernandes, 1945, Silva, Pereira, esposo, 1996, mãe, irmã, avô). Caminho devagar. Os olhos postos no chão. (Pequeno largo, capela, Lencastre, Cardona, 1986, filho) Caminho devagar. Viro a esquina. Sempre mais nomes, sempre mais datas. (Eterna saudade, nunca te esqueceremos, nos nossos corações). Caminho devagar. Sozinha. Na mão, aperto as begónias cuja cor se enche de sol.
Chego. Há folhas de chorão espalhadas, já amarelecidas. Limpo este chão raso de terra quente que agora é meu.Tiro as plantas queimadas, as flores murchas e rego com cuidado as que florescem.Coloco as begónias. Empurro-as para que o vermelho-coração faça corpo com a terra húmida. Não há ainda um nome, nem uma data ou uma palavra. Só flores, um número e toda uma vida que me falta.