26.7.08

As lápides cinzentas do cemitério a perder de vista confirmavam a dimensão da cidade. Tinham chamado por mim há pouco, dando ao meu apelido um sotaque espanhol, mais comum neste país. Vi-me, então, estrangeira, de um país que poucos conheceriam (ou não). O trajecto para a cidade foi longo, de uma paisagem pouco apetecível, mas a leitura de alguns nomes familiares na placas de trânsito

23.7.08

Here I go again

Gostava de dizer que gosto, poder brincar, provocar, amar. De dizer tudo o que sinto. Gostava que entre as palavras não existissem NUNCA muros de silêncio. Gostava de sentir que as mãos que agarro, me que querem também agarrar. Salvar-me também, que todos precisamos de (alguma) salvação. Gostava de ser entendida sem julgamentos. De ser olhada nos olhos. Mas sinto-me só, acompanhadamente só. Subitamente é a vida toda que me cansa. Será mal do Verão? Escolhi outro caminho, fecho todas as portas e quase anseio pela próxima estação.

Fecho a janela

Abro a janela e vejo o mar. Abro a janela e vejo copas de árvores a dançar ao vento. Abro a janela e vejo os telhados de Lisboa, meninos a jogar à bola. Abro a janela.... a minha janela... mas nada disto é o meu horizonte. Por isso corro os vidros, desço os estores, fecho os olhos e os ouvidos.

18.7.08

azul

Caminhara, durante o dia, por entre novas caras. Decisão tomada, não havia volta atrás. Ao fundo, ouviu, cada vez mais distantes, vozes familiares. Leu palavras que não esperava, de reconhecimento, quase de amizade. O destino tinha-o empurrado, como gostava de pensar... Sabia contudo que tinha feito uma escolha. Deixou-se ir. De que lado sopraria o vento? Contra ou a seu favor? Cansado, baixou os braços. O mar azul rugia lá fora... Sentiu-se só.

atlantic

17.7.08

entre nós e as palavras

Repito este poema de Mário Cesariny. É esmagador.

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

escrita

A página em branco vai atrapalhar-me. Vai ser ameaçadora, vai exigir-me imaginação, criatividade, jeito. Acho que virão sons, cheiros... Sim, pelo cheiro quem sabe? Talvez surjam memórias e desejos que eu consiga transpor em palavras. A página em branco... Não sei... Vai ameaçar-me.

12.7.08

primeira hora absurda - the sequel

O homem, cujo pensamento estalava de raiva, decidiu vingar-se. Emoções à flor da pele, traído por aquilo que achava seu, olhou o monitor. Para quê escrever mais? Nada lhe fazia sentido. Abriu o ecrã minimizado em baixo. Tão frágil. Naquele momento a única coisa à sua mercê. Definições. Clicar. Page down. Eliminar este blogue? Tem certeza? Nunca mais vai recuperar o que escreveu. E isso que me interessa? São banalidades. Sim. Clicar. Ponho fim a estas horas absurdas.