20.10.09

viagem III

Em viagem vejo o executivo jovem, com olhos sós e três telemóveis sobre a mesa do comboio. Vejo o rapaz a beijar com carinho a namorada que parte e logo a sentar-se junto a outra mulher. Vejo a chuva. Vejo as letras do folheto que bailam e me enjoam neste alfa apressado com cheiro a estofos sujos. Vejo a paisagem triste de casas velhas e um restaurante miratejo de onde não se vê o rio. Vejo uma mãe, vestida como prostituta barata, sempre desconfiada. Vejo as núvens -umas baixas e outras altas mais brancas a anunciar o bom tempo. Vejo quem me telefona. Respondo. Vejo o café que me servem, antecipo o sabor. Vejo a minha manga do casaco que recupera da chuvada e retoma a cor normal. Vejo este teclado onde conto o que vejo. Acho que já ninguém me vê. Transparente.

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