21.3.10

Vem, noite antiquíssima

...
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos.
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...

...


Álvaro de Campos num dia de poesia

2 comentários:

  1. Sei a força do Oriente. Sei, todos os dias, as saudades do Oriente. A tranquilidade dos jardins. O olhar-respeito. Sei o toque do Oriente e a vontade das pessoas que no Ocidente se encontravam. Sei o pôr-do-sol contínuo a caminho do Oriente. Não sabia do gosto do Oriente de Álvaro de Campos.

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