25.7.10

De novo, o acaso da poesia

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia



Al Berto

23.7.10

Hoje...

... o mar está feito num cão.



Este mar de pessoas e emoções.





Cão.

19.7.10

coincidência... em tom maior

Revisitei, por acaso, este poema que respira... E aqui fica.



Para jardim te queria.
Te queria para gume
ou o frio das espadas.
Te queria para lume.
Para orvalho te queria
sobre as horas transtornadas.

Para a boca te queria.
Te queria para entrar
e partir pela cintura.
Para barco te queria.
Te queria para ser
canção breve, chama pura.


Eugénio de Andrade

11.7.10

Esta não sou eu...

?

Invejo, como nunca pensei, aqueles que têm tempo. Aqueles a quem ninguém cobra nada.
Grito agora aos quatro ventos para quem me quer ouvir que preciso de tempo. Mas os que dizem que sim, sabem atingir-me no ponto mais fraco.

Luto para que seja diferente. Para que não seja preciso voltar costas. Sinto-me só nesta luta e os dias são, por isso, difíceis. As noites, às vezes, insuportáveis.

Nessas noites, deito-me na cama e choro. Porque subitamente o tempo parece ser justificação para demasiadas coisas, como se a sua falta não fosse, só por si, uma punição.

9.7.10

Leitura antiga, agora revisitada

...
O homem afastou os ramos e olhou para o rio. Na margem havia roupas. Alguém tomava banho. Empurrou mais os ramos. E viu uma mulher. Saía da água, completamente despida, brilhava sob o luar, branca. Muitas outras vezes o centauro vira mulheres, mas nunca assim, neste rio, com esta lua. Outras vezes vira seios oscilando, o tremor das coxas ao andar, o ponto de escuridão no centro do corpo. Outras vezes vira cabelos caindo para as costas, e mãos que os lançavam para trás, gesto tão antigo. Mas a parte que lhe cabia do mundo em que as mulheres viviam, era só a que satisfaria o cavalo, talvez o centauro, não o homem. E foi o homem que olhou, que viu a mulher aproximar-se da roupa, foi ele que rompeu por entre os ramos, correu para ela no seu trote de cavalo e depois, ao mesmo tempo que ela gritava, a levantou nos braços.

Também isto fizera algumas vezes, tão poucas, em milhares de anos. Acto inútil, apenas assustador, acto que poderia ter deixado atrás de si a loucura, se isso mesmo não aconteceu. Mas esta era a sua terra e a primeira mulher que nela via. O centauro correu ao longo das árvores, e o homem sabia que mais adiante pousaria a mulher no chão, frustrado ele, apavorada ela, mulher inteira, homem por metade. Agora um caminho largo quase tocava as árvores, e adiante o rio fazia uma curva. A mulher já não gritava, apenas soluçava e tremia.
(...)
O homem olhou para trás: os perseguidores vinham longe, muito longe. Então, segurando a mulher por baixo dos braços, olhando-a em todo o corpo, com todo o luar despindo-a, disse na sua velha língua, na língua dos bosques, dos favos de mel, das colunas brancas, do mar sonoro, do riso sobre as montanhas:
— Não me queiras mal.
Depois, devagar, pousou-a no chão. Mas a mulher não fugiu. Saíram-lhe da boca palavras que o homem foi capaz de entender:
— Tu és um centauro. Tu existes.
Pousou-lhe as duas mãos sobre o peito. As patas do cavalo tremiam. Então a mulher deitou-se e disse:
— Cobre-me.
O homem via-a de cima, aberta em cruz. Avançou lentamente. Durante um momento, a sombra do cavalo cobriu a mulher. Nada mais. Então o centauro afastou-se para o lado e lançou-se a galope, enquanto o homem gritava, cerrando os punhos na direcção do céu e da lua.
...


Extracto do conto "O Centauro" de José Saramago

6.7.10

este blog podia chamar-se...




... "Gostava de ser como a Julianne Moore".

Li num blog

"...a tal de felicidade parece-me cada vez mais um gesto de compromisso e de vontade, não apenas emoções."

5.7.10

Hoje... em cinco pensamentos

1. Odeio agora a profissão que sempre amei. Detesto quase tudo nela e até o movimento do meu corpo até lá, onde a realizo, me é doloroso.

2. Sabes o que eu queria? Levar-te a voar sobre os terraços de Espanha como num quadro de Chagall, ouvir contigo o rumor do mar na costa amalfitana, que me desses a mão para entrar nos castelos-palácios da Escócia. Ir(mos)...

3. O calor é irrespirável lá fora. Sabe-me bem este frio postiço.

4. Não tenho tempo para nada. Mesmo nada. E faço tanto.

5. E as férias que tardam ... Sabes o que eu queria?