e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
Al Berto
25.7.10
23.7.10
19.7.10
coincidência... em tom maior
Revisitei, por acaso, este poema que respira... E aqui fica.
Para jardim te queria.
Te queria para gume
ou o frio das espadas.
Te queria para lume.
Para orvalho te queria
sobre as horas transtornadas.
Para a boca te queria.
Te queria para entrar
e partir pela cintura.
Para barco te queria.
Te queria para ser
canção breve, chama pura.
Eugénio de Andrade
Para jardim te queria.
Te queria para gume
ou o frio das espadas.
Te queria para lume.
Para orvalho te queria
sobre as horas transtornadas.
Para a boca te queria.
Te queria para entrar
e partir pela cintura.
Para barco te queria.
Te queria para ser
canção breve, chama pura.
Eugénio de Andrade
14.7.10
11.7.10
?
Invejo, como nunca pensei, aqueles que têm tempo. Aqueles a quem ninguém cobra nada.
Grito agora aos quatro ventos para quem me quer ouvir que preciso de tempo. Mas os que dizem que sim, sabem atingir-me no ponto mais fraco.
Luto para que seja diferente. Para que não seja preciso voltar costas. Sinto-me só nesta luta e os dias são, por isso, difíceis. As noites, às vezes, insuportáveis.
Nessas noites, deito-me na cama e choro. Porque subitamente o tempo parece ser justificação para demasiadas coisas, como se a sua falta não fosse, só por si, uma punição.
Grito agora aos quatro ventos para quem me quer ouvir que preciso de tempo. Mas os que dizem que sim, sabem atingir-me no ponto mais fraco.
Luto para que seja diferente. Para que não seja preciso voltar costas. Sinto-me só nesta luta e os dias são, por isso, difíceis. As noites, às vezes, insuportáveis.
Nessas noites, deito-me na cama e choro. Porque subitamente o tempo parece ser justificação para demasiadas coisas, como se a sua falta não fosse, só por si, uma punição.
9.7.10
Leitura antiga, agora revisitada
...
O homem afastou os ramos e olhou para o rio. Na margem havia roupas. Alguém tomava banho. Empurrou mais os ramos. E viu uma mulher. Saía da água, completamente despida, brilhava sob o luar, branca. Muitas outras vezes o centauro vira mulheres, mas nunca assim, neste rio, com esta lua. Outras vezes vira seios oscilando, o tremor das coxas ao andar, o ponto de escuridão no centro do corpo. Outras vezes vira cabelos caindo para as costas, e mãos que os lançavam para trás, gesto tão antigo. Mas a parte que lhe cabia do mundo em que as mulheres viviam, era só a que satisfaria o cavalo, talvez o centauro, não o homem. E foi o homem que olhou, que viu a mulher aproximar-se da roupa, foi ele que rompeu por entre os ramos, correu para ela no seu trote de cavalo e depois, ao mesmo tempo que ela gritava, a levantou nos braços.
Também isto fizera algumas vezes, tão poucas, em milhares de anos. Acto inútil, apenas assustador, acto que poderia ter deixado atrás de si a loucura, se isso mesmo não aconteceu. Mas esta era a sua terra e a primeira mulher que nela via. O centauro correu ao longo das árvores, e o homem sabia que mais adiante pousaria a mulher no chão, frustrado ele, apavorada ela, mulher inteira, homem por metade. Agora um caminho largo quase tocava as árvores, e adiante o rio fazia uma curva. A mulher já não gritava, apenas soluçava e tremia.
(...)
O homem olhou para trás: os perseguidores vinham longe, muito longe. Então, segurando a mulher por baixo dos braços, olhando-a em todo o corpo, com todo o luar despindo-a, disse na sua velha língua, na língua dos bosques, dos favos de mel, das colunas brancas, do mar sonoro, do riso sobre as montanhas:
— Não me queiras mal.
Depois, devagar, pousou-a no chão. Mas a mulher não fugiu. Saíram-lhe da boca palavras que o homem foi capaz de entender:
— Tu és um centauro. Tu existes.
Pousou-lhe as duas mãos sobre o peito. As patas do cavalo tremiam. Então a mulher deitou-se e disse:
— Cobre-me.
O homem via-a de cima, aberta em cruz. Avançou lentamente. Durante um momento, a sombra do cavalo cobriu a mulher. Nada mais. Então o centauro afastou-se para o lado e lançou-se a galope, enquanto o homem gritava, cerrando os punhos na direcção do céu e da lua. ...
Extracto do conto "O Centauro" de José Saramago
O homem afastou os ramos e olhou para o rio. Na margem havia roupas. Alguém tomava banho. Empurrou mais os ramos. E viu uma mulher. Saía da água, completamente despida, brilhava sob o luar, branca. Muitas outras vezes o centauro vira mulheres, mas nunca assim, neste rio, com esta lua. Outras vezes vira seios oscilando, o tremor das coxas ao andar, o ponto de escuridão no centro do corpo. Outras vezes vira cabelos caindo para as costas, e mãos que os lançavam para trás, gesto tão antigo. Mas a parte que lhe cabia do mundo em que as mulheres viviam, era só a que satisfaria o cavalo, talvez o centauro, não o homem. E foi o homem que olhou, que viu a mulher aproximar-se da roupa, foi ele que rompeu por entre os ramos, correu para ela no seu trote de cavalo e depois, ao mesmo tempo que ela gritava, a levantou nos braços.
Também isto fizera algumas vezes, tão poucas, em milhares de anos. Acto inútil, apenas assustador, acto que poderia ter deixado atrás de si a loucura, se isso mesmo não aconteceu. Mas esta era a sua terra e a primeira mulher que nela via. O centauro correu ao longo das árvores, e o homem sabia que mais adiante pousaria a mulher no chão, frustrado ele, apavorada ela, mulher inteira, homem por metade. Agora um caminho largo quase tocava as árvores, e adiante o rio fazia uma curva. A mulher já não gritava, apenas soluçava e tremia.
(...)
O homem olhou para trás: os perseguidores vinham longe, muito longe. Então, segurando a mulher por baixo dos braços, olhando-a em todo o corpo, com todo o luar despindo-a, disse na sua velha língua, na língua dos bosques, dos favos de mel, das colunas brancas, do mar sonoro, do riso sobre as montanhas:
— Não me queiras mal.
Depois, devagar, pousou-a no chão. Mas a mulher não fugiu. Saíram-lhe da boca palavras que o homem foi capaz de entender:
— Tu és um centauro. Tu existes.
Pousou-lhe as duas mãos sobre o peito. As patas do cavalo tremiam. Então a mulher deitou-se e disse:
— Cobre-me.
O homem via-a de cima, aberta em cruz. Avançou lentamente. Durante um momento, a sombra do cavalo cobriu a mulher. Nada mais. Então o centauro afastou-se para o lado e lançou-se a galope, enquanto o homem gritava, cerrando os punhos na direcção do céu e da lua. ...
Extracto do conto "O Centauro" de José Saramago
6.7.10
Li num blog
"...a tal de felicidade parece-me cada vez mais um gesto de compromisso e de vontade, não apenas emoções."
5.7.10
Hoje... em cinco pensamentos
1. Odeio agora a profissão que sempre amei. Detesto quase tudo nela e até o movimento do meu corpo até lá, onde a realizo, me é doloroso.
2. Sabes o que eu queria? Levar-te a voar sobre os terraços de Espanha como num quadro de Chagall, ouvir contigo o rumor do mar na costa amalfitana, que me desses a mão para entrar nos castelos-palácios da Escócia. Ir(mos)...
3. O calor é irrespirável lá fora. Sabe-me bem este frio postiço.
4. Não tenho tempo para nada. Mesmo nada. E faço tanto.
5. E as férias que tardam ... Sabes o que eu queria?
2. Sabes o que eu queria? Levar-te a voar sobre os terraços de Espanha como num quadro de Chagall, ouvir contigo o rumor do mar na costa amalfitana, que me desses a mão para entrar nos castelos-palácios da Escócia. Ir(mos)...
3. O calor é irrespirável lá fora. Sabe-me bem este frio postiço.
4. Não tenho tempo para nada. Mesmo nada. E faço tanto.
5. E as férias que tardam ... Sabes o que eu queria?
Subscrever:
Comentários (Atom)

