20.5.09

hoje

Depois de poucas horas de sono, acordei cansada de tentar ser tudo e não conseguir ser nada. Cansada das ausências e dos excessos que são apenas agora os ritmos da minha vida.

Chorei. Farta dos espaços, apeteceu-me sentir o vento forte na cara, o cheiro do mar e dos campos. Farta das palavras, apeteceu-me aninhar-me num refúgio de silêncios cúmplices.

Queria que a vida parasse. Que o relógio deixasse de marcar as horas. Só por um pouco. Só por um dia.

E lembrei-me deste poema.

Faltava aqui este poeta que marcou a minha vida com as suas palavras. O amor que me fez desejar.


Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como um bosque.

É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas na luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.


Eugénio de Andrade

1 comentário:

  1. Um poema lindo lindo para um texto sofrido. Melhores dias virão, é preciso acreditar.

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