Eu não queria nascer. A minha mãe contou-me já muitas vezes como foi difícil para mim entrar neste mundo. Fi-la sofrer muito nesse dia quente de Agosto. O mais quente do ano, ao que parece.
Este medo de nascer - gosto de pensar que foi assim desde o início - tornou-se depressa medo de viver. Sempre fui receosa dos outros, da velha que me puxava o lenço da cabeça com bonecos da Disney numa retrosaria do Rossio (e a minha mãe que não me defendia!) e que, por causa dela, cresciam as dores de barriga logo à saída da estação de comboios. Tinha 4, 5 anos.
O medo de não conseguir sobreviver, o medo não ser suficientemente boa. A mania de perfeição de que me acusam e que é apenas, afinal, o medo de falhar até nas coisas mais simples.
Em adulta percebi este erro, se calhar tarde demais para o corrigir. Mas combati-o tanto que me tornei, pelo menos aparentemente, mais forte e decidida que muitos dos que me rodeiam.
Mas sei também que o lenço da Disney está sempre à mão para ser puxado. E aí o medo volta. As dores de barriga enquanto caminho.
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