22.5.10

"não quero viver com ninguém"

Os meus pais fizeram anos de casados. O meu pai não se lembrou do dia, nem a minha mãe quis que o lembrasse. Seria surpreendente que ele identificasse esta data, agora que a memória já lhe foge tantas vezes - "estou baralhado", diz repetidamente, num olhar perdido que nunca lhe vi antes. A minha mãe, com o corpo carregado de tristeza, lembra os quase 50 anos de conflitos e indiferença. Sobretudo a indiferença. A falta de amor. A dependência recente do meu pai nada lhe diz porque nasceu da fragilidade, de saber que sem ela se irá perder, sempre, ao virar de cada esquina. Choro sozinha em casa. Também lembro esta data que não conheci, mas da qual nasceu "a melhor coisa da minha vida" (mãe, abraça-me). Ela sempre sofreu, sei-o bem demais.

Não conheço muitos casamentos felizes. Aliás, nenhum. Fui vendo neles aquilo que ia excluindo para mim - o ciúme, a obsessão, a mentira, a traição, a distância física e emocional. Criei o meu ideal de relação por aquilo que não queria. Seria feita de companheirismo, de verdade, de cumplicidade discreta. Um amor que se sabe. E procurei-a. Fui sempre procurando, a tentar ser, cada vez mais, essa companheira, a cúmplice, a amada, a amante.

Não sei bem se esta viagem pela vida me destinou esse encontro. Mas no dia em que os meus pais fizeram anos de casados, chorei sozinha por tudo o que não consegui.











Ainda.

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