30.3.17

Em cada




Agora, mãe, em cada morte revivo a tua morte. Em cada lágrima, o meu choro por ti. Em cada ausência, esta ausência Maior.

Mas em cada fado, estará tua voz. Em cada rua de Lisboa, o nosso caminhar mão na mão. Em cada criança que grita "Mãe!", estarei eu, de novo, a chamar-te.

26.3.17

Francisco




Pouco mais de um mês após a tua morte, mãe, morreu o tio.



Espero que tu e o pai o recebam bem... Eles vão os dois contar piadas, sempre o fizeram, e tu vais rir.


Rir.






23.3.17





A tua morte era o dia que eu mais temia. Já em criança, aterrorizava-me a ideia de te perder, de me perder de ti.

Agora, mãe, já não há medos para mim. Nem a minha própria morte me assusta.

20.3.17

Laurinda Alves escreveu



... Infelizmente nenhum pai dura para sempre. Nunca saberemos quando será o seu último dia, mas esse dia chega muitas vezes quando menos esperamos. Acordamos com pai e adormecemos órfãos. Assim mesmo. E no momento em que o perdemos, percebemos que não estávamos preparados. [...] Se tivemos a sorte de ter uma vida longa com pais presentes e próximos, eles chegam a parecer-nos eternos. Mas não é verdade. Os pais morrem e nós nunca saberemos o dia. Essa é a nossa única certeza. Tarde ou cedo, quando acontece sentimos que o mundo se torna um lugar estranho. Ao perdermos o pai, perdemos protecção. Mesmo quando o pai não era de proteger os seus filhos ou, pelo contrário, os enchia de preocupações, a sensação é sempre de perda irreparável. Se era um bom pai, perdemos o nosso escudo protector, a nossa grande referência, o nosso maior e mais forte abraço. Se o pai não era como gostávamos que fosse, também perdemos a ilusão de um dia podermos chegar a um ponto de equilíbrio ou até de reconciliação (nem que fosse uma reconciliação com o pai real, deixando para trás o pai ideal ou idealizado).

Porque os pais morrem e nunca saberemos o dia, nem a hora, importa ter muito presente esta verdade. Faz diferença vivermos com esta certeza, para não nos acontecer deixar alguma coisa por fazer ou por dizer. O meu pai morreu na semana passada, quando absolutamente ninguém esperava. Moramos juntos nos últimos anos e vivemos todos na mesma casa durante o tempo suficiente para que nada de essencial ficasse por dizer ou fazer, mas mesmo assim a perda é irremediável. Por isso escrevo para que outros filhos e outros pais não se esqueçam de que tudo passa, menos o amor. No coração de um pai ficam para sempre gravados todos os gestos de amor, mesmo os mais ínfimos. No coração dos filhos também.

14.3.17

Dois dos teus imperativos





Nunca te resignes a quem não te ama

Não tenhas medo de nada

12.3.17

MENTIRA

Quando me falam do que te aconteceu é como se uma espada se atravessasse na minha garganta. Quero gritar que é mentira, que estão enganados.



Quero, quero muito, que estejas à minha espera.

Hoje quero dizer-te...




Hoje quero dizer-te, mãe, que a nossa P. foi pela primeira vez à praia. Acho que gostou tanto dela como tu, ou eu, ou o pai.

Quero dizer-te também que tens razão: ela é muito inteligente e aprende depressa. Quase se atirou para as rochas quando passou o primeiro comboio, encolheu-se ao segundo, mas ao terceiro pousou as patas em cima dos pés da L. porque já sabia que estava protegida.

Quero dizer-te ainda que quando eu caminhava mais atrás, ela ia sempre vendo se eu vinha e esperava um pouco até que eu chegasse.

Quero dizer-te ainda que falámos muitas vezes nestes passeios que iríamos dar quando viesse o tempo bom. A L. foi comigo, por isso acho que ficas feliz.            "Vai, diverte-te!"

Hoje senti que a L. e P. também eram tu. Ali, ao pé do rio, como tantas vezes falámos.

7.3.17



Um amigo é aquele que nos recorda, muitas vezes, que estamos prometidos à alegria.

Pe. Tolentino Mendonça







5.3.17

Há uma mulher

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor

Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma


Sophia de Mello Breyner Andresen

4.3.17

24.02.14  ..... Pai









19.02.17 .... Mãe











Tanta estranheza, quase pesadelo-turbilhão, vozes amigas e conhecidas que se misturam em consolos










 e no fim 



esta solidão que fica                   Só minha









Avô, conte-me uma história

Avô,

conte-me uma história em que eu seja pequena e fique espantada outra vez.

Pai


Este texto foi-me dado pela L. poucos dias antes de o meu pai morrer.


APRENDER A MORRER

É tão estranho que entre a avalancha de saberes úteis e inúteis que acumula­mos uma vida inteira não
esteja este: aprender a morrer. A contemporaneidade fez da morte o seu tabu, o
mais temido e ocultado, e deixa-nos completamente impreparados para enfrentar a
naturalidade com que a vida a abraça. A morte surge como uma interrupção, um
interdito de linguagem mais inconveniente do que uma asneira, uma dor para
viver às escondidas, uma intromissão com a qual em nenhum momento contámos.
Sobre a morte não sabemos o que dizer, nem o que pensar. E isso constitui, de
facto, uma falta enorme.



Montaigne dizia que não morremos por estar doentes, morremos por estar vivos. Talvez seja por aí que devamos recomeçar, religando o que hoje parece tão inconciliável. A morte é uma
expressão da vida A mais enigmática, impenetrável e intraduzível das expressões,
certamente. Mas é no interior da vida que temos de compreendê-la. Colhendo o
seguinte: ao recolocar-nos dramaticamente perante o mistério que somos, a morte
como que resgata a própria exis­tência. É que podemos levar uma vida inteira
sem pensar no que ela é: esta surge-nos como um dado óbvio, esventrado de
qualquer interrogação, uma certeza assente, sem mais. E não é assim. A morte
pode representar no itinerário pessoal, e nos nossos caminhos entrecruzados e
comuns, a oportunidade para olharmos a vida mais profundamente. A vida não é só
este tráfico de verbos ativos, esta marcha emparedada e sonâmbula, este vogar
entre deve e haver, esta contabilidade no lugar da metafísi­ca A vida não é só
isto. A morte amplia-a. Revela-lhe um fundo que não vemos. São, por isso, tão
necessários os versos de Rilke: «Senhor, dá a cada um a sua própria morte. / Um
morrer que venha dessa vida / que reparte por nós amor, sentido e aflição. /
Porque nós somos apenas a casca e a folha / A grande morte, que cada um traz em
si, / é o fruto à volta do qual tudo gira.»



Um acontecimento editorial deste outono é a publicação dos escritos de Cicely Saunders, a médica
que fundou a primeira unidade de cuidados paliativos, uma das mais fantásticas
inovações da saúde no século XX. O livro chama-se "Velai Comigo", tem
pouco mais do que setenta páginas e merecia bem ser lido por todos. O que me
marcou mais na leitura que fiz foi uma frase repetida continua­mente pela
autora: «temos de aprender». Temos de aprender a estar com os outros quando
chegar o seu momento, desenvolvendo capacidades até então negligenciadas. Temos
de aprender a cuidar da dor e a minorá-la, mas não só com comprimidos: também
com o coração, com a presença, com os gestos silenciosos, o respeito, com uma
expectativa de coragem. Os doentes não estão à procura de indulgência. Temos de
aprender a embalar a fragilidade, a dos outros e a nossa própria, ajudar cada
um a reencontrar-se com as coisas e com as memórias certas, a não desesperar, a
encontrar um fio de sentido no que está a viver, por ínfimo e trémulo que seja.
Temos de aprender a ser suporte, temos de querer eficiência técnica mas também
compaixão, temos de reconhecer o valor de um sorriso, ainda que imperfeito, em
certas horas extremas. À beira do fim há sempre tanta coisa que começa.



Uma das lembranças que me são mais queridas provém, por exemplo, do último internamento do meu pai.Recordo-me de, por dias e dias, andar de mão dada com ele, muito devagarinho,
no grande corredor do hospital. Eu passava-lhe toda a força que podia com a
minha mão. Mas a sua mão era maior do que a minha. E sei que ainda é.




José Tolentino Mendonça
In Expresso, 2.11.2013
03.11.13

Marca Anzol

O meu pai usava muitas expressões populares para se referir a diversas situações. "Dar ao serrote", "Está um briol", "Doem-me os amendoins" e muitas outras. A minha amiga R. teve um pretendente que usava frases como esta, que ela não percebia por não serem propriamente do seu meio. Fiz-lhe, por isso, uma tradução das mais comuns, com base nos meus vastos conhecimentos da linguagem da classe operária.

Há uma, no entanto, que o meu pai dizia muitas vezes para falar de mim, da minha mãe ou de qualquer pessoa que fosse ou tivesse atitudes mais ariscas. Durante muitos anos não percebi exatamente o que ele dizia, parecia-me que falava de "gasóleo" e não percebia a ligação. Afinal era  ser "marca anzol", ou seja, ser de gancho.

Era ele que a usava mais, mesmo entre os meus tios, e por vezes sorria ou piscava o olho depois de a dizer, como que a contrariá-la. Sorria e piscava o olho. Brincava, assim...


Cruz Quebrada



Hoje de manhã na Cruz Quebrada o rio-quase-mar era de prata e as ondas breves tinham a indolência de uma praia tropical. Por entre os reflexos intensos, podia jurar que vi o meu pai, com 8 anos, a jogar à bola, as manchas de sol em demasia a marcar-lhe a cara sorridente, leve.

Dakota

- Sabes, naquele tempo não havia muito dinheiro para diversões...
- Mas o que é que tu e os tios faziam nos fins de semana?
- Íamos para o aeroporto ver os aviões. O Dakota, com as suas enormes hélices. Vrruuuuummmm... era impressionante!



O meu pai foi morar para o Bairro da Encarnação logo após a sua construção, era ainda criança. O aeroporto, mesmo ao lado, servia de atração para muitos. O meu pai gostaria de ter viajado num Dakota, tenho a certeza. Estar, até, aos comandos de um Dakota, se o meu avô o pudesse ter mandado estudar. Sim, imagino-o, alto e elegante no seu uniforme, em viagens pelo mundo... Ele seria como aquele velho comandante que vi na televisão, cujos olhos ainda brilhavam ao falar em rotas, escalas, e de tudo o mais  que teve de deixar quando lhe "cortaram as asas".

O meu avô Manuel era umas das pessoas mais enérgicas que conheci. Nunca estava parado, tanto no trabalho, como no lazer. Foi com ele que ganhei o gosto de viajar... Primeiro, em grandes passeios por Lisboa. Depois, com a minha avó Celeste em viagens pelo Norte de Portugal, Madeira e Açores. A minha primeira viagem de avião, teria uns 14 anos.

Avô, querido avô, ainda não deixei de viajar, sabia? Tenho pena de não o ter levado a Paris, a única cidade estrangeira que queria visitar.






Do good


O meu pai usava muito esta expressão. Quando gostava de alguma coisa dizia: "Isto está do good". A esta juntava-se outra frase que também nunca ouvi a  mais ninguém: "Isto é cá para o joi" (numa adaptação de Joe, imagino eu).












Joi, tenho muitas saudades tuas.

Tony Curtis

O meu pai e os meus tios, quando eram ainda rapazes, decidiram passar a pentear-se à Tony Curtis. Eis o resultado no meu pai. Estava lindo!







Jayme





O meu avô, pai do meu pai, nasceu na Rua do Ouro a 21 de Agosto de 1904. O meu bisavô Jayme, homem de fartos bigodes, sonhava para ele um curso de engenharia, mas os estudos não o interessaram. Às vezes imagino este meu bisavô, elegante como na fotografia descorada, a cruzar-se com Fernando Pessoa nas ruas da baixa lisboeta e, quem sabe até, num breve cumprimento tocando ao de leve na aba do chapéu à porta da Brasileira.

À Americana


O meu avô Manuel, pai da minha mãe, contava-me muitas histórias de Lisboa antiga. Mas lembro-o aqui porque me disse que o seu sonho de jovem era ter uns sapatos castanhos e brancos.

Vi esta foto e lembrei-me de si, portanto, cá estão eles. Podia ter sido o avô a gastá-los nos seus amados passeios pela nossa cidade.