... Infelizmente nenhum pai dura para sempre. Nunca saberemos
quando será o seu último dia, mas esse dia chega muitas vezes quando menos
esperamos. Acordamos com pai e adormecemos órfãos. Assim mesmo. E no momento em
que o perdemos, percebemos que não estávamos preparados. [...] Se tivemos
a sorte de ter uma vida longa com pais presentes e próximos, eles chegam a
parecer-nos eternos. Mas não é verdade. Os pais morrem e nós nunca saberemos o
dia. Essa é a nossa única certeza. Tarde ou cedo, quando acontece sentimos que
o mundo se torna um lugar estranho. Ao perdermos o pai, perdemos protecção.
Mesmo quando o pai não era de proteger os seus filhos ou, pelo contrário, os
enchia de preocupações, a sensação é sempre de perda irreparável. Se era um bom
pai, perdemos o nosso escudo protector, a nossa grande referência, o nosso
maior e mais forte abraço. Se o pai não era como gostávamos que fosse, também
perdemos a ilusão de um dia podermos chegar a um ponto de equilíbrio ou até de
reconciliação (nem que fosse uma reconciliação com o pai real, deixando para
trás o pai ideal ou idealizado).
Porque os pais morrem e nunca saberemos o dia, nem a hora,
importa ter muito presente esta verdade. Faz diferença vivermos com esta
certeza, para não nos acontecer deixar alguma coisa por fazer ou por dizer. O
meu pai morreu na semana passada, quando absolutamente ninguém esperava.
Moramos juntos nos últimos anos e vivemos todos na mesma casa durante o tempo
suficiente para que nada de essencial ficasse por dizer ou fazer, mas mesmo
assim a perda é irremediável. Por isso escrevo para que outros filhos e outros
pais não se esqueçam de que tudo passa, menos o amor. No coração de um pai
ficam para sempre gravados todos os gestos de amor, mesmo os mais ínfimos. No
coração dos filhos também.
Sem comentários:
Enviar um comentário