Faz hoje um ano que eu soube que a morte se aproximava. Pedi a todos que não fossem visitar-te nesse dia, corri as cortinas da cama de hospital e encostei a minha cabeça ao teu peito. Faz hoje um ano que assim, encostada ao teu peito, te agradeci esta vida tão cheia do teu amor, em que a solidão era sempre passageira. Acaricei as tuas mãos, os teus braços, o teu rosto, eu já tão impotente e já quase tão só. Não sei se me ouviste, se sentiste as minhas lágrimas entre o torpor da morfina, Prefiro pensar que sonhavas com os nossos momentos felizes, risos, brincadeiras, enquanto eu velava o sono em que irias partir. Como ao pai, segredei-te "Não tenhas medo".
Passaram apenas umas horas. Faz amanhã um ano que a morte se impôs, tu que sempre lutaste contra as suas ameaças com todas as forças. 40 anos de batalhas até este dia frio de Fevereiro. Faz amanhã um ano, sabias? Parecem cem. As saudades que tenho de ti... não consigo dizê-las. Amo-te.
horas absurdas
18.2.18
1.7.17
4 horas
Tenho na mão a oficialização da tua partida. 04.00H. Eram 4 horas num domingo de fevereiro. Fevereiro. Só gostava deste mês por ser o do teu aniversário, mas agora há-de ser sempre o mês em que morreste. Tu, o pai e o avô... Não há como suportar mais este mês, pudesse eu riscá-lo para sempre, rasgar essa folha do calendário, pintá-la de negro - 9, 19, 24.
Ainda não sei o vai ser da minha vida, se é que a minha tem de ser algo mais do que isto que agora é. Domingo, fevereiro, 4 horas da manhã. Li algures que quem acorda a essa hora - e tu acordavas tantas e tantas vezes - irá cumprir um desígnio superior.
Quero acreditar que foste chamada para esse desígnio... Senão, porquê tão rápido, naquele domingo, naquele fevereiro?
28.5.17
Ansiedade
Já foi identificada há muito tempo. Vive dentro de mim e embora a consiga controlar na maior parte das vezes, ela está sempre à espreita para me dar este murro no estômago, este nó na garganta, vindos muitas vezes do nada ou do que ainda não foi e nem sequer, provavelmente, será. Hoje é um desses dias. A minha mãe sabia disso e tinha as palavras certas, os gestos. E agora?
21.5.17
3.5.17
Nós
Mãe, sei que hoje puseste a tua mão sobre nós. Senti-me protegida.
Obrigada.
Com todo o meu amor, sempre.
22.4.17
22108
Caminho devagar. Na mão, um vaso de begónias vermelhas, vermelho-sangue, vermelho-coração. (Fernandes, 1945, Silva, Pereira, esposo, 1996, mãe, irmã, avô). Caminho devagar. Os olhos postos no chão. (Pequeno largo, capela, Lencastre, Cardona, 1986, filho) Caminho devagar. Viro a esquina. Sempre mais nomes, sempre mais datas. (Eterna saudade, nunca te esqueceremos, nos nossos corações). Caminho devagar. Sozinha. Na mão, aperto as begónias cuja cor se enche de sol.
Chego. Há folhas de chorão espalhadas, já amarelecidas. Limpo este chão raso de terra quente que agora é meu.Tiro as plantas queimadas, as flores murchas e rego com cuidado as que florescem.Coloco as begónias. Empurro-as para que o vermelho-coração faça corpo com a terra húmida. Não há ainda um nome, nem uma data ou uma palavra. Só flores, um número e toda uma vida que me falta.
30.3.17
Em cada
Agora, mãe, em cada morte revivo a tua morte. Em cada lágrima, o meu choro por ti. Em cada ausência, esta ausência Maior.
Mas em cada fado, estará tua voz. Em cada rua de Lisboa, o nosso caminhar mão na mão. Em cada criança que grita "Mãe!", estarei eu, de novo, a chamar-te.
26.3.17
Francisco
Pouco mais de um mês após a tua morte, mãe, morreu o tio.
Espero que tu e o pai o recebam bem... Eles vão os dois contar piadas, sempre o fizeram, e tu vais rir.
Rir.
23.3.17
20.3.17
Laurinda Alves escreveu
... Infelizmente nenhum pai dura para sempre. Nunca saberemos
quando será o seu último dia, mas esse dia chega muitas vezes quando menos
esperamos. Acordamos com pai e adormecemos órfãos. Assim mesmo. E no momento em
que o perdemos, percebemos que não estávamos preparados. [...] Se tivemos
a sorte de ter uma vida longa com pais presentes e próximos, eles chegam a
parecer-nos eternos. Mas não é verdade. Os pais morrem e nós nunca saberemos o
dia. Essa é a nossa única certeza. Tarde ou cedo, quando acontece sentimos que
o mundo se torna um lugar estranho. Ao perdermos o pai, perdemos protecção.
Mesmo quando o pai não era de proteger os seus filhos ou, pelo contrário, os
enchia de preocupações, a sensação é sempre de perda irreparável. Se era um bom
pai, perdemos o nosso escudo protector, a nossa grande referência, o nosso
maior e mais forte abraço. Se o pai não era como gostávamos que fosse, também
perdemos a ilusão de um dia podermos chegar a um ponto de equilíbrio ou até de
reconciliação (nem que fosse uma reconciliação com o pai real, deixando para
trás o pai ideal ou idealizado).
Porque os pais morrem e nunca saberemos o dia, nem a hora,
importa ter muito presente esta verdade. Faz diferença vivermos com esta
certeza, para não nos acontecer deixar alguma coisa por fazer ou por dizer. O
meu pai morreu na semana passada, quando absolutamente ninguém esperava.
Moramos juntos nos últimos anos e vivemos todos na mesma casa durante o tempo
suficiente para que nada de essencial ficasse por dizer ou fazer, mas mesmo
assim a perda é irremediável. Por isso escrevo para que outros filhos e outros
pais não se esqueçam de que tudo passa, menos o amor. No coração de um pai
ficam para sempre gravados todos os gestos de amor, mesmo os mais ínfimos. No
coração dos filhos também.
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