Durmo e acordo com a tranquilidade de um início de férias. Neste quarto-prazer, sons diferentes vão povoando as noites e as manhãs -o bebé que chora, o relógio de sala que dá horas dolentes, o casal que se ama com solavancos ritmados, o homem atraiçoado que ouve a mesma canção obsessivamente.
Ainda não conhecia os pássaros. Estremunhada, acordo com um chilrear alegre e desenfreado de dezenas de pássaros que enchem as árvores vizinhas. Fecho os olhos - por minutos, esta selva de cimento é um bosque, a margem de um rio, um pomar.
E este quarto é uma sombra fresca, um barco a remos, o cheiro das maçãs.
27.9.09
24.9.09
A propos
A propósito de os blogs poderem ser (afinal) reflexos de nós, nos nossos diferentes sentires... textos que se arrancam de nós...
Ce papier c'est ma voix. Cette encre c'est mon sang. Cette lettre c'est moi.
Cyrano de Begerac
Ce papier c'est ma voix. Cette encre c'est mon sang. Cette lettre c'est moi.
Cyrano de Begerac
22.9.09
21.9.09
Prova
Hoje vivi mil dias num só.
Mas vi por entre os gritos das crianças, duas mãos que se entrelaçam
Por entre papéis sem nexo, um abraço não-pedido
Entre toques do telefone e números frios, um beijo doce
Por entre suores da corrida, a cumplicidade de um olhar
Vi tudo isso, aqui. No desespero, vi o amor
Vi.
Mas vi por entre os gritos das crianças, duas mãos que se entrelaçam
Por entre papéis sem nexo, um abraço não-pedido
Entre toques do telefone e números frios, um beijo doce
Por entre suores da corrida, a cumplicidade de um olhar
Vi tudo isso, aqui. No desespero, vi o amor
Vi.
20.9.09
Palavras
Fazemos coisas com as palavras e as palavras fazem coisas connosco - lembra-me hoje Foucault.
A L. diz que as palavras podem ser uma treta. Quem as escreve pensa A, quem as lê pensa Z. Há quem seja hábil com as palavras, as use com primor, sem no fundo, dizer nada do que vai mesmo no fundo da alma. Quantas vezes julgamos da profundidade das pessoas pelo que escrevem e afinal .... Há também quem use muitas palavras, incompreensíveis na sua sintaxe elaborada, só pelo prazer da verborreia.
Mas as palavras podem mesmo fazer tantas coisas connosco... maravilhosas ou terríveis. E estão sempre lá, as palavras, - preto no branco, branco no preto - prontas a fazer-nos rir, chorar, amar e desesperar.
Já disse aqui que acredito que houve um livro que me salvou há muitos anos. E a propósito das palavras, a vitória do simples, nesse livro:
Hoje colhi todas as rosas dos jardins e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.
Poema para o meu amor doente, Eugénio de Andrade
A L. diz que as palavras podem ser uma treta. Quem as escreve pensa A, quem as lê pensa Z. Há quem seja hábil com as palavras, as use com primor, sem no fundo, dizer nada do que vai mesmo no fundo da alma. Quantas vezes julgamos da profundidade das pessoas pelo que escrevem e afinal .... Há também quem use muitas palavras, incompreensíveis na sua sintaxe elaborada, só pelo prazer da verborreia.
Mas as palavras podem mesmo fazer tantas coisas connosco... maravilhosas ou terríveis. E estão sempre lá, as palavras, - preto no branco, branco no preto - prontas a fazer-nos rir, chorar, amar e desesperar.
Já disse aqui que acredito que houve um livro que me salvou há muitos anos. E a propósito das palavras, a vitória do simples, nesse livro:
Hoje colhi todas as rosas dos jardins e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.
Poema para o meu amor doente, Eugénio de Andrade
19.9.09
dias azuis
Os lugares de fuga são sempre breves; só isso lhes dá encanto. À medida que deixam de ser fugas e entram pelos dias adentro, o cinzento apodera-se deles, como de tudo o resto, e o pó acumula-se sobre as cores, os cheiros, as peles.
Na insónia recordo. Sim, recordo. Quem se lança na busca desenfreada de um amor que salve, de um trabalho desejado, sem saber (ou a saber, sem querer saber) que haverá sempre enormes pequenezas que nos vão estragar o sonho.
Foi há alguns anos. Era um príncipe, alto e culto, tenho a certeza que amava. Um amor perfeito feito nas histórias de encantar. Era ali o lugar certo para estar. A inveja dos outros, da maravilha. Acabou, esgotado pelas rotinas.
Aprendi, como já tantas vezes disse, que a chave é conseguir fazer da rotina pequenos encantos. Só o tempo nos ensina a fazê-lo. O tempo para aprender, a paciência para o fazer. Foi pena ser há alguns anos. Hoje, liberta das exigências do agora, saberia ter este príncipe.
Olho as pessoas que me rodeiam, numa azáfama que chefio. Está a tornar-se insuportável. Contrario-me e rodopio com elas. Ponho a minha energia nesses momentos - sugiro, procuro a colaboração. Entre iguais. Tento fazer do difícil, fácil. Acho que me olham de forma diferente. Tocam-me pela primeira vez. Dizem-me da energia (como, se não dormi?). Elogio a disponibilidade - um deles é bonito, jovem, quase um aluno. Sorri, satisfeito. Quer ajudar mais. Brinco com ele. Brinco com todos. Surpresa pela teaser que desconheciam.
Duas situações diferentes. Um mesmo sentimento - saber fazer do cinzento, azul. A minha Cor.
tempo. paciência.
vontade
Na insónia recordo. Sim, recordo. Quem se lança na busca desenfreada de um amor que salve, de um trabalho desejado, sem saber (ou a saber, sem querer saber) que haverá sempre enormes pequenezas que nos vão estragar o sonho.
Foi há alguns anos. Era um príncipe, alto e culto, tenho a certeza que amava. Um amor perfeito feito nas histórias de encantar. Era ali o lugar certo para estar. A inveja dos outros, da maravilha. Acabou, esgotado pelas rotinas.
Aprendi, como já tantas vezes disse, que a chave é conseguir fazer da rotina pequenos encantos. Só o tempo nos ensina a fazê-lo. O tempo para aprender, a paciência para o fazer. Foi pena ser há alguns anos. Hoje, liberta das exigências do agora, saberia ter este príncipe.
Olho as pessoas que me rodeiam, numa azáfama que chefio. Está a tornar-se insuportável. Contrario-me e rodopio com elas. Ponho a minha energia nesses momentos - sugiro, procuro a colaboração. Entre iguais. Tento fazer do difícil, fácil. Acho que me olham de forma diferente. Tocam-me pela primeira vez. Dizem-me da energia (como, se não dormi?). Elogio a disponibilidade - um deles é bonito, jovem, quase um aluno. Sorri, satisfeito. Quer ajudar mais. Brinco com ele. Brinco com todos. Surpresa pela teaser que desconheciam.
Duas situações diferentes. Um mesmo sentimento - saber fazer do cinzento, azul. A minha Cor.
tempo. paciência.
vontade
18.9.09
Abri a janela e vesti-me de cinzento como o dia. Pode ser que assim me misture com a chuva e ninguém me veja ou diga o meu nome.
Da estrada vai surgindo, enorme, a foz, cinzenta também. Digo-lhe How Beautiful, vamos? Largo os pedais e o volante, o motor optimizado ronrona, concordando. Leva-me ao meio do mar. Acelera, lisonjeado, e lança-se em voo.
Sempre acreditei que voasse.
Até.
Da estrada vai surgindo, enorme, a foz, cinzenta também. Digo-lhe How Beautiful, vamos? Largo os pedais e o volante, o motor optimizado ronrona, concordando. Leva-me ao meio do mar. Acelera, lisonjeado, e lança-se em voo.
Sempre acreditei que voasse.
Até.
"...e há palavras homens..."
Há dias que não deveriam nascer. Demasiado pesados - trabalho, doença. Sem risos, nem beijos que contagiem.
Subitamente, fica frio. É inverno outra vez.
Palavras que regressam.
Subitamente, fica frio. É inverno outra vez.
Palavras que regressam.
16.9.09
Isto é tudo a fingir
papel
cadeiras
mesas
pais
alunos
professores
gripe a
autocarros
autorizações
mapas
jogos
absurdemos a vida, de leste a oeste.
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
cadeiras
mesas
pais
alunos
professores
gripe a
autocarros
autorizações
mapas
jogos
absurdemos a vida, de leste a oeste.
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
Deixa-me, fogo
gritava a rapariga em voz alta e descontrolada. E fugia dele, que corria atrás dela, não sei se para se explicar, se para a impedir de expor o seu desespero.
- Deixa-me, deixa-me! - gritava, com voz de choro - deixa-me em paz, fogo!
De repente, o silêncio. Deixei de a ouvir. Procurei vê-la entre os carros. Que lhe teria acontecido? E aos seus gritos tão sentidos?
Sempre detestei parques de estacionamento. Lembram-me perseguições, crimes.
Subitamente, imaginei-a caída. Estrangulada.
Ontem, no Colombo.
- Deixa-me, deixa-me! - gritava, com voz de choro - deixa-me em paz, fogo!
De repente, o silêncio. Deixei de a ouvir. Procurei vê-la entre os carros. Que lhe teria acontecido? E aos seus gritos tão sentidos?
Sempre detestei parques de estacionamento. Lembram-me perseguições, crimes.
Subitamente, imaginei-a caída. Estrangulada.
Ontem, no Colombo.
10.9.09
Apeteceu-me
Soave sia il vento
Tranquilla sia l'onda
Ed ogni elemento
Benigno risponda
Ai nostri desir
W.A. Mozart, Cosi Fan Tutte
Fácil Difícil
É fácil rir quando nada nos preocupa. Quando as férias nos enchem os dias, quando as noites são de amigos. Rimos sem pensar num mundo que nos atrapalhe.
Difícil é rir quando tudo nos cansa. Quando os dias são de atropelos, de barreiras.
Esse riso é uma enorme vitória de luz e cor sobre a escuridão.
Difícil é rir quando tudo nos cansa. Quando os dias são de atropelos, de barreiras.
Esse riso é uma enorme vitória de luz e cor sobre a escuridão.
7.9.09
Mas não é.
Trazes-me o quotidiano. Alguns desesperos e a esperança de dias sempre melhores. A vida.
Subitamente, os desesperos da noite, o ruído ensurdecedor da madrugada desaparecem. Faz-se claro ali, mesmo que a escuridão volte sempre mais tarde para nos apagar.
Por momentos respiramos fundo e sorrimos. Rimos até. Desentendemo-nos para nos encontrarmos.
Parece banal.
Parece.
Subitamente, os desesperos da noite, o ruído ensurdecedor da madrugada desaparecem. Faz-se claro ali, mesmo que a escuridão volte sempre mais tarde para nos apagar.
Por momentos respiramos fundo e sorrimos. Rimos até. Desentendemo-nos para nos encontrarmos.
Parece banal.
Parece.
3.9.09
Sinal vermelho
Paro num sinal vermelho. É fim de tarde e a cidade enche-se de gente que corre para cá e para lá, fartos de trabalho sem sentido na pressa da casa. Gente que atravessa. As pernas quase simétricas no mesmo ritmo.
Um casal na beira do passeio. Ele estático, de mãos nos bolsos, olha para a direita. Ela olha para ele, abraça-o. Beija-o. Ele, de mãos nos bolsos. Mãos. Bolsos. Olha para esquerda, para nada. Olha para fugir ao beijo, aos olhos dela. Olha para o vazio. Mãos. Bolsos. Hirto.
Nada. Num sinal vermelho.
Um casal na beira do passeio. Ele estático, de mãos nos bolsos, olha para a direita. Ela olha para ele, abraça-o. Beija-o. Ele, de mãos nos bolsos. Mãos. Bolsos. Olha para esquerda, para nada. Olha para fugir ao beijo, aos olhos dela. Olha para o vazio. Mãos. Bolsos. Hirto.
Nada. Num sinal vermelho.
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