Os lugares de fuga são sempre breves; só isso lhes dá encanto. À medida que deixam de ser fugas e entram pelos dias adentro, o cinzento apodera-se deles, como de tudo o resto, e o pó acumula-se sobre as cores, os cheiros, as peles.
Na insónia recordo. Sim, recordo. Quem se lança na busca desenfreada de um amor que salve, de um trabalho desejado, sem saber (ou a saber, sem querer saber) que haverá sempre enormes pequenezas que nos vão estragar o sonho.
Foi há alguns anos. Era um príncipe, alto e culto, tenho a certeza que amava. Um amor perfeito feito nas histórias de encantar. Era ali o lugar certo para estar. A inveja dos outros, da maravilha. Acabou, esgotado pelas rotinas.
Aprendi, como já tantas vezes disse, que a chave é conseguir fazer da rotina pequenos encantos. Só o tempo nos ensina a fazê-lo. O tempo para aprender, a paciência para o fazer. Foi pena ser há alguns anos. Hoje, liberta das exigências do agora, saberia ter este príncipe.
Olho as pessoas que me rodeiam, numa azáfama que chefio. Está a tornar-se insuportável. Contrario-me e rodopio com elas. Ponho a minha energia nesses momentos - sugiro, procuro a colaboração. Entre iguais. Tento fazer do difícil, fácil. Acho que me olham de forma diferente. Tocam-me pela primeira vez. Dizem-me da energia (como, se não dormi?). Elogio a disponibilidade - um deles é bonito, jovem, quase um aluno. Sorri, satisfeito. Quer ajudar mais. Brinco com ele. Brinco com todos. Surpresa pela teaser que desconheciam.
Duas situações diferentes. Um mesmo sentimento - saber fazer do cinzento, azul. A minha Cor.
tempo. paciência.
vontade
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