Este texto foi-me dado pela L. poucos dias antes de o meu pai morrer.
APRENDER A MORRER
É tão estranho que entre a avalancha de saberes úteis e inúteis que acumulamos uma vida inteira não
esteja este: aprender a morrer. A contemporaneidade fez da morte o seu tabu, o
mais temido e ocultado, e deixa-nos completamente impreparados para enfrentar a
naturalidade com que a vida a abraça. A morte surge como uma interrupção, um
interdito de linguagem mais inconveniente do que uma asneira, uma dor para
viver às escondidas, uma intromissão com a qual em nenhum momento contámos.
Sobre a morte não sabemos o que dizer, nem o que pensar. E isso constitui, de
facto, uma falta enorme.
Montaigne dizia que não morremos por estar doentes, morremos por estar vivos. Talvez seja por aí que devamos recomeçar, religando o que hoje parece tão inconciliável. A morte é uma
expressão da vida A mais enigmática, impenetrável e intraduzível das expressões,
certamente. Mas é no interior da vida que temos de compreendê-la. Colhendo o
seguinte: ao recolocar-nos dramaticamente perante o mistério que somos, a morte
como que resgata a própria existência. É que podemos levar uma vida inteira
sem pensar no que ela é: esta surge-nos como um dado óbvio, esventrado de
qualquer interrogação, uma certeza assente, sem mais. E não é assim. A morte
pode representar no itinerário pessoal, e nos nossos caminhos entrecruzados e
comuns, a oportunidade para olharmos a vida mais profundamente. A vida não é só
este tráfico de verbos ativos, esta marcha emparedada e sonâmbula, este vogar
entre deve e haver, esta contabilidade no lugar da metafísica A vida não é só
isto. A morte amplia-a. Revela-lhe um fundo que não vemos. São, por isso, tão
necessários os versos de Rilke: «Senhor, dá a cada um a sua própria morte. / Um
morrer que venha dessa vida / que reparte por nós amor, sentido e aflição. /
Porque nós somos apenas a casca e a folha / A grande morte, que cada um traz em
si, / é o fruto à volta do qual tudo gira.»
Um acontecimento editorial deste outono é a publicação dos escritos de Cicely Saunders, a médica
que fundou a primeira unidade de cuidados paliativos, uma das mais fantásticas
inovações da saúde no século XX. O livro chama-se "Velai Comigo", tem
pouco mais do que setenta páginas e merecia bem ser lido por todos. O que me
marcou mais na leitura que fiz foi uma frase repetida continuamente pela
autora: «temos de aprender». Temos de aprender a estar com os outros quando
chegar o seu momento, desenvolvendo capacidades até então negligenciadas. Temos
de aprender a cuidar da dor e a minorá-la, mas não só com comprimidos: também
com o coração, com a presença, com os gestos silenciosos, o respeito, com uma
expectativa de coragem. Os doentes não estão à procura de indulgência. Temos de
aprender a embalar a fragilidade, a dos outros e a nossa própria, ajudar cada
um a reencontrar-se com as coisas e com as memórias certas, a não desesperar, a
encontrar um fio de sentido no que está a viver, por ínfimo e trémulo que seja.
Temos de aprender a ser suporte, temos de querer eficiência técnica mas também
compaixão, temos de reconhecer o valor de um sorriso, ainda que imperfeito, em
certas horas extremas. À beira do fim há sempre tanta coisa que começa.
Uma das lembranças que me são mais queridas provém, por exemplo, do último internamento do meu pai.Recordo-me de, por dias e dias, andar de mão dada com ele, muito devagarinho,
no grande corredor do hospital. Eu passava-lhe toda a força que podia com a
minha mão. Mas a sua mão era maior do que a minha. E sei que ainda é.
José Tolentino Mendonça
03.11.13