26.12.10
21.12.10
desisto...
... de tentar que entendam, sem ter de o admitir, que, por agora, sou feita de vidro tão fino que sinto que me estilhaço a cada palavra, tão vazia de memória que quase vejo a parede branca em que embato, tão exausta de tudo que o aqui consegue sufocar-me.
Desisto.
Guardo para mim que, agora, as grandes vitórias são as pequenas sobrevivências diárias.
Desisto.
Guardo para mim que, agora, as grandes vitórias são as pequenas sobrevivências diárias.
Os Justos
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral
18.12.10
por ter dito...
... o me ia no coração, fiquei a perder.
Muito.
Tens razão - há coisas que não se dizem.
Devem ficar sempre dentro de nós. Mesmo que bastasse um quase nada para desfazer os medos, as dúvidas.
Disse o que me ia no coração e o meu coração tinha-me dito para não o fazer. Perdi.
Muito.
Tens razão - há coisas que não se dizem.
Devem ficar sempre dentro de nós. Mesmo que bastasse um quase nada para desfazer os medos, as dúvidas.
Disse o que me ia no coração e o meu coração tinha-me dito para não o fazer. Perdi.
16.12.10
será o frio que os torna tão sábios?
Love me when I least deserve it, because that's when I really need it.
Swedish proverb
Swedish proverb
norte
Este frio vem da islândia, dizem. Encolho-me para me proteger, cerro a boca ao virar as esquinas e os ombros doem nestes braços-casacos tensos.
E de repente, num arrepio, sinto que vivo nesse país de gelo e vulcões, na dinamarca, na suécia. Sonho, então, que o meu mundo é mais organizado.
Limpo.
Civilizado.
E de repente, num arrepio, sinto que vivo nesse país de gelo e vulcões, na dinamarca, na suécia. Sonho, então, que o meu mundo é mais organizado.
Limpo.
Civilizado.
15.12.10
13.12.10
28.11.10
25.11.10
Poderia escrever 1000 posts com o turbilhão que sinto em mim. Poderia escrever sobre tanta, tanta coisa, mas não consigo. Porque só me apetece virar-me para dentro, para o meu avesso.
Fico em silêncio. Este silêncio que se adensa a cada minuto, até se instalar de vez e erguer uma parede de betão. Entre mim e as palavras. Entre mim e os sentimentos.
Fico em silêncio. Este silêncio que se adensa a cada minuto, até se instalar de vez e erguer uma parede de betão. Entre mim e as palavras. Entre mim e os sentimentos.
24.11.10
Espera-me
Hoje apetecia-me esta cidade. Sem obrigações. Sem horas. Parques, ruas, cafés, a língua que adoro. Hoje apetecia-me esta cidade.
14.11.10
Esta noite escrevia uma carta importante para o meu trabalho. Tinha erros, omissões. Reescrevi-a uma e outra vez, sempre com incorrecções, enquanto outros me esperavam, impacientes. Está incompleta, não se percebe, faltam-lhe palavras. Paro para a escrever em qualquer canto, encostada às paredes. A letra às vezes incompreensível. Esperem por mim, tenho que terminar esta carta. Recomeço. Tenho pressa, escrevo-a enquanto caminho, quase a correr. Pego num computador, mas não funciona. Perco o meu carro, vou demorar mais tempo para levar esta carta ao destino... O meu carro está numa garagem soterrada. Escavo com rapidez como quem constrói uma poça na praia. Não consigo, não consigo.
Demorei alguns segundos a perceber que era um sonho. Cansam-me, estas noites.
Demorei alguns segundos a perceber que era um sonho. Cansam-me, estas noites.
11.11.10
Anunciada
Preciso de libertar este grito de saber que a tristeza nunca te abandonou. Eu que queria trazer-te o sol, cerrei com força os olhos ao preto e branco das teclas e deixei de ouvir a ausência das tuas-minhas palavras.
Não sei bem. - nove letras, uma lâmina.
A tempestade sempre anunciada em ti regressou e ficarei - (não) sei bem - sem o que não soube, o que não houve.
Não sei bem. - nove letras, uma lâmina.
A tempestade sempre anunciada em ti regressou e ficarei - (não) sei bem - sem o que não soube, o que não houve.
7.11.10
28.10.10
Por isso
Há uma praia depois da sombra
uma clareira para iluminar
Há um abrigo no meio das ondas
tudo é caminho para iluminar
Por isso... vem.
uma clareira para iluminar
Há um abrigo no meio das ondas
tudo é caminho para iluminar
Por isso... vem.
26.10.10
24.10.10
Corpo
O meu corpo não me responde. Parece morto para o sentir. Fujo de ti com medo de não me conseguir dar.
Fujo. Sofro. Não me sinto. Não te digo.
Fujo. Sofro. Não me sinto. Não te digo.
20.10.10
Sabes?
Embora nem sempre (te) possa parecer, oiço-te com todo o meu ser. Recebo-te na minha casa de cal e de corpo com o prazer secreto e sereno da desejada cumplicidade.
Oiço-te, vejo-te... Mas há momentos em que nas minhas palavras podes sentir o gume que me atravessa. O gume da insegurança, da tristeza, de não poder. Este frio que vem de dentro.
Oiço-te, vejo-te... Mas há momentos em que nas minhas palavras podes sentir o gume que me atravessa. O gume da insegurança, da tristeza, de não poder. Este frio que vem de dentro.
Do I belong here?
A minha profissão sempre foi onde eu podia dar o meu melhor. Investi muito - muito mais do que talvez devesse - da minha energia nos dias de trabalho que se estenderam quase sempre ao fim-de-semana. Gostava do que fazia, dos colegas com quem partilhava desânimos e alegrias.
Regressei a este espaço de onde me ausentei por dois anos. Muitas caras desconhecidas e alguma falta de simpatia não marcam face aos abraços familiares, às boas-vindas, à confiança. Tenho a certeza que este regresso me salvou em parte, uma vez que me afastou de tarefas que me devoravam por dentro. Tenho mais tempo livre, faço aquilo a que dediquei (quase) toda a vida adulta.
Mas... (porque haverá sempre um mas?)
este cansaço que persiste
este estranho sentimento de já não pertencer aqui...
Regressei a este espaço de onde me ausentei por dois anos. Muitas caras desconhecidas e alguma falta de simpatia não marcam face aos abraços familiares, às boas-vindas, à confiança. Tenho a certeza que este regresso me salvou em parte, uma vez que me afastou de tarefas que me devoravam por dentro. Tenho mais tempo livre, faço aquilo a que dediquei (quase) toda a vida adulta.
Mas... (porque haverá sempre um mas?)
este cansaço que persiste
este estranho sentimento de já não pertencer aqui...
8.10.10
Casa
Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.
David Mourão-Ferreira
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.
David Mourão-Ferreira
Espectáculo maior
Ontem achava que ia levar a minha mãe a ver o concerto do Camané no CCB. Agora acho que foi ela que me levou - obrigada, mãe. O espectáculo foi simplesmente magnífico. José Manuel Neto na guitarra portuguesa em todo o seu esplendor, Carlos Proença na viola e Carlos Bica no contrabaixo (sentia-se o atmosfera do jazz). Ri e chorei com as letras de grandes poetas e melodias ora pesadas e fatais, ora alegres e "picadinhas".
E este concerto começou assim...
E este concerto começou assim...
29.9.10
H
Um casal sentado em frente. Estamos num hospital e sinto-me inquieta. O casal faz, talvez, palavras cruzadas e sorri. Sorriem um para o outro numa cumplicidade profunda. Por momentos sinto raiva. A falta da relação-fortaleza que me fizesse agora também sorrir. Estamos num hospital e queima-me este grito que sustenho.
16.8.10
25.7.10
De novo, o acaso da poesia
e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
Al Berto
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
Al Berto
23.7.10
19.7.10
coincidência... em tom maior
Revisitei, por acaso, este poema que respira... E aqui fica.
Para jardim te queria.
Te queria para gume
ou o frio das espadas.
Te queria para lume.
Para orvalho te queria
sobre as horas transtornadas.
Para a boca te queria.
Te queria para entrar
e partir pela cintura.
Para barco te queria.
Te queria para ser
canção breve, chama pura.
Eugénio de Andrade
Para jardim te queria.
Te queria para gume
ou o frio das espadas.
Te queria para lume.
Para orvalho te queria
sobre as horas transtornadas.
Para a boca te queria.
Te queria para entrar
e partir pela cintura.
Para barco te queria.
Te queria para ser
canção breve, chama pura.
Eugénio de Andrade
14.7.10
11.7.10
?
Invejo, como nunca pensei, aqueles que têm tempo. Aqueles a quem ninguém cobra nada.
Grito agora aos quatro ventos para quem me quer ouvir que preciso de tempo. Mas os que dizem que sim, sabem atingir-me no ponto mais fraco.
Luto para que seja diferente. Para que não seja preciso voltar costas. Sinto-me só nesta luta e os dias são, por isso, difíceis. As noites, às vezes, insuportáveis.
Nessas noites, deito-me na cama e choro. Porque subitamente o tempo parece ser justificação para demasiadas coisas, como se a sua falta não fosse, só por si, uma punição.
Grito agora aos quatro ventos para quem me quer ouvir que preciso de tempo. Mas os que dizem que sim, sabem atingir-me no ponto mais fraco.
Luto para que seja diferente. Para que não seja preciso voltar costas. Sinto-me só nesta luta e os dias são, por isso, difíceis. As noites, às vezes, insuportáveis.
Nessas noites, deito-me na cama e choro. Porque subitamente o tempo parece ser justificação para demasiadas coisas, como se a sua falta não fosse, só por si, uma punição.
9.7.10
Leitura antiga, agora revisitada
...
O homem afastou os ramos e olhou para o rio. Na margem havia roupas. Alguém tomava banho. Empurrou mais os ramos. E viu uma mulher. Saía da água, completamente despida, brilhava sob o luar, branca. Muitas outras vezes o centauro vira mulheres, mas nunca assim, neste rio, com esta lua. Outras vezes vira seios oscilando, o tremor das coxas ao andar, o ponto de escuridão no centro do corpo. Outras vezes vira cabelos caindo para as costas, e mãos que os lançavam para trás, gesto tão antigo. Mas a parte que lhe cabia do mundo em que as mulheres viviam, era só a que satisfaria o cavalo, talvez o centauro, não o homem. E foi o homem que olhou, que viu a mulher aproximar-se da roupa, foi ele que rompeu por entre os ramos, correu para ela no seu trote de cavalo e depois, ao mesmo tempo que ela gritava, a levantou nos braços.
Também isto fizera algumas vezes, tão poucas, em milhares de anos. Acto inútil, apenas assustador, acto que poderia ter deixado atrás de si a loucura, se isso mesmo não aconteceu. Mas esta era a sua terra e a primeira mulher que nela via. O centauro correu ao longo das árvores, e o homem sabia que mais adiante pousaria a mulher no chão, frustrado ele, apavorada ela, mulher inteira, homem por metade. Agora um caminho largo quase tocava as árvores, e adiante o rio fazia uma curva. A mulher já não gritava, apenas soluçava e tremia.
(...)
O homem olhou para trás: os perseguidores vinham longe, muito longe. Então, segurando a mulher por baixo dos braços, olhando-a em todo o corpo, com todo o luar despindo-a, disse na sua velha língua, na língua dos bosques, dos favos de mel, das colunas brancas, do mar sonoro, do riso sobre as montanhas:
— Não me queiras mal.
Depois, devagar, pousou-a no chão. Mas a mulher não fugiu. Saíram-lhe da boca palavras que o homem foi capaz de entender:
— Tu és um centauro. Tu existes.
Pousou-lhe as duas mãos sobre o peito. As patas do cavalo tremiam. Então a mulher deitou-se e disse:
— Cobre-me.
O homem via-a de cima, aberta em cruz. Avançou lentamente. Durante um momento, a sombra do cavalo cobriu a mulher. Nada mais. Então o centauro afastou-se para o lado e lançou-se a galope, enquanto o homem gritava, cerrando os punhos na direcção do céu e da lua. ...
Extracto do conto "O Centauro" de José Saramago
O homem afastou os ramos e olhou para o rio. Na margem havia roupas. Alguém tomava banho. Empurrou mais os ramos. E viu uma mulher. Saía da água, completamente despida, brilhava sob o luar, branca. Muitas outras vezes o centauro vira mulheres, mas nunca assim, neste rio, com esta lua. Outras vezes vira seios oscilando, o tremor das coxas ao andar, o ponto de escuridão no centro do corpo. Outras vezes vira cabelos caindo para as costas, e mãos que os lançavam para trás, gesto tão antigo. Mas a parte que lhe cabia do mundo em que as mulheres viviam, era só a que satisfaria o cavalo, talvez o centauro, não o homem. E foi o homem que olhou, que viu a mulher aproximar-se da roupa, foi ele que rompeu por entre os ramos, correu para ela no seu trote de cavalo e depois, ao mesmo tempo que ela gritava, a levantou nos braços.
Também isto fizera algumas vezes, tão poucas, em milhares de anos. Acto inútil, apenas assustador, acto que poderia ter deixado atrás de si a loucura, se isso mesmo não aconteceu. Mas esta era a sua terra e a primeira mulher que nela via. O centauro correu ao longo das árvores, e o homem sabia que mais adiante pousaria a mulher no chão, frustrado ele, apavorada ela, mulher inteira, homem por metade. Agora um caminho largo quase tocava as árvores, e adiante o rio fazia uma curva. A mulher já não gritava, apenas soluçava e tremia.
(...)
O homem olhou para trás: os perseguidores vinham longe, muito longe. Então, segurando a mulher por baixo dos braços, olhando-a em todo o corpo, com todo o luar despindo-a, disse na sua velha língua, na língua dos bosques, dos favos de mel, das colunas brancas, do mar sonoro, do riso sobre as montanhas:
— Não me queiras mal.
Depois, devagar, pousou-a no chão. Mas a mulher não fugiu. Saíram-lhe da boca palavras que o homem foi capaz de entender:
— Tu és um centauro. Tu existes.
Pousou-lhe as duas mãos sobre o peito. As patas do cavalo tremiam. Então a mulher deitou-se e disse:
— Cobre-me.
O homem via-a de cima, aberta em cruz. Avançou lentamente. Durante um momento, a sombra do cavalo cobriu a mulher. Nada mais. Então o centauro afastou-se para o lado e lançou-se a galope, enquanto o homem gritava, cerrando os punhos na direcção do céu e da lua. ...
Extracto do conto "O Centauro" de José Saramago
6.7.10
Li num blog
"...a tal de felicidade parece-me cada vez mais um gesto de compromisso e de vontade, não apenas emoções."
5.7.10
Hoje... em cinco pensamentos
1. Odeio agora a profissão que sempre amei. Detesto quase tudo nela e até o movimento do meu corpo até lá, onde a realizo, me é doloroso.
2. Sabes o que eu queria? Levar-te a voar sobre os terraços de Espanha como num quadro de Chagall, ouvir contigo o rumor do mar na costa amalfitana, que me desses a mão para entrar nos castelos-palácios da Escócia. Ir(mos)...
3. O calor é irrespirável lá fora. Sabe-me bem este frio postiço.
4. Não tenho tempo para nada. Mesmo nada. E faço tanto.
5. E as férias que tardam ... Sabes o que eu queria?
2. Sabes o que eu queria? Levar-te a voar sobre os terraços de Espanha como num quadro de Chagall, ouvir contigo o rumor do mar na costa amalfitana, que me desses a mão para entrar nos castelos-palácios da Escócia. Ir(mos)...
3. O calor é irrespirável lá fora. Sabe-me bem este frio postiço.
4. Não tenho tempo para nada. Mesmo nada. E faço tanto.
5. E as férias que tardam ... Sabes o que eu queria?
26.6.10
Pode ser a gota de água
Enquanto não retomo a viagem, deixo aqui a sensação da gota de água.
Hoje, sinto-me quase morta.
Hoje, sinto-me quase morta.
10.6.10
Dia 1
Vou contar-vos uma viagem que começa aqui, em Lisboa. A partida tem sempre algo de triste, mesmo que o seu propósito seja a diversão, o descanso. Viajar por prazer - raras são as coisas melhores. Mas eu odeio aeroportos. São locais confusos, hostis nos permanentes controlos, tira, mostra, guarda, despe, veste, guarda, tira, mostra... Na porta de embarque poderíamos descansar, não fosse a vista sobre os aviões e os passageiros, agora todos potenciais suspeitos de um acto tresloucado. O lugar, no meio dos amigos amados, mas o pavor ainda assim. A descolagem é afinal pacífica num tranquilo fim de tarde. 5 horas nos esperam. O pôr-do-sol enche o céu de muitos azuis e laranjas, reduzindo-os gradualmente a um único traço avermelhado sobre o azul profundo. Esquecemos quase que voamos, até que, pela janela, nos encandeia um forte clarão. É uma trovoada sob nós que nos lembra a enorme fragilidade de sermos.
Chegamos. Outra língua, outras letras. Já é manhã e quase não vimos a noite, nem o descanso. O táxi onde uma melga voa até ser esmagada pela mão da minha amiga. O aromatizador que balança em frente à janela, em figura de boazona de cheiro forte. As luvas sem dedos do taxista (mau augúrio?), as passadeiras na auto-estrada. Letras, letras, palavras sem sentido e o dia que amanhece nesta cidade do tamanho de um pequeno país. A manhã clareia e quase não vimos a noite. O calor inesperado. O hotel, a cama, enfim. O descanso que tardava.
Até logo.
Chegamos. Outra língua, outras letras. Já é manhã e quase não vimos a noite, nem o descanso. O táxi onde uma melga voa até ser esmagada pela mão da minha amiga. O aromatizador que balança em frente à janela, em figura de boazona de cheiro forte. As luvas sem dedos do taxista (mau augúrio?), as passadeiras na auto-estrada. Letras, letras, palavras sem sentido e o dia que amanhece nesta cidade do tamanho de um pequeno país. A manhã clareia e quase não vimos a noite. O calor inesperado. O hotel, a cama, enfim. O descanso que tardava.
Até logo.
31.5.10
30.5.10
27.5.10
derrotada
Chegou a altura de partir. Hoje, num minuto bastou para perceber.
Durante o dia, tanta, tanta gente me chama e o meu nome cansa-me. Resolver, fazer, escrever, decidir sempre mais e mais. Hoje, aquele homem de olhar doce que me disse "aguentas-te bem" percebeu afinal que me desfazia por dentro. Sim. Percebeu que eu iria neste mesmo dia, fechar os olhos e os ouvidos e gritar durante uma reunião. E o silêncio que se fez à minha volta. Ai!...... Fecho os olhos e os ouvidos a esta batalha. Esta batalha onde soçobro porque já não sei onde repousar. O meu porto de abrigo é mais uma batalha que travo, cheia de solidão e desencontros, mais e mais. Ai....! E grito aqui, sozinha. A vizinha bate à porta de mansinho.
Não tenho onde repousar, percebe?
É a viagem que me espera. Parto. Quem sabe noutra vida.
Durante o dia, tanta, tanta gente me chama e o meu nome cansa-me. Resolver, fazer, escrever, decidir sempre mais e mais. Hoje, aquele homem de olhar doce que me disse "aguentas-te bem" percebeu afinal que me desfazia por dentro. Sim. Percebeu que eu iria neste mesmo dia, fechar os olhos e os ouvidos e gritar durante uma reunião. E o silêncio que se fez à minha volta. Ai!...... Fecho os olhos e os ouvidos a esta batalha. Esta batalha onde soçobro porque já não sei onde repousar. O meu porto de abrigo é mais uma batalha que travo, cheia de solidão e desencontros, mais e mais. Ai....! E grito aqui, sozinha. A vizinha bate à porta de mansinho.
Não tenho onde repousar, percebe?
É a viagem que me espera. Parto. Quem sabe noutra vida.
23.5.10
"há momentos em que precisamos de estar sozinhos"
Há tantos, tantos momentos desses. Compreendo-o melhor do que algum dia saberás. Ou talvez te conte, um dia.
A verdadeira ausência é um ponto sem retorno.
A verdadeira ausência é um ponto sem retorno.
22.5.10
"não quero viver com ninguém"
Os meus pais fizeram anos de casados. O meu pai não se lembrou do dia, nem a minha mãe quis que o lembrasse. Seria surpreendente que ele identificasse esta data, agora que a memória já lhe foge tantas vezes - "estou baralhado", diz repetidamente, num olhar perdido que nunca lhe vi antes. A minha mãe, com o corpo carregado de tristeza, lembra os quase 50 anos de conflitos e indiferença. Sobretudo a indiferença. A falta de amor. A dependência recente do meu pai nada lhe diz porque nasceu da fragilidade, de saber que sem ela se irá perder, sempre, ao virar de cada esquina. Choro sozinha em casa. Também lembro esta data que não conheci, mas da qual nasceu "a melhor coisa da minha vida" (mãe, abraça-me). Ela sempre sofreu, sei-o bem demais.
Não conheço muitos casamentos felizes. Aliás, nenhum. Fui vendo neles aquilo que ia excluindo para mim - o ciúme, a obsessão, a mentira, a traição, a distância física e emocional. Criei o meu ideal de relação por aquilo que não queria. Seria feita de companheirismo, de verdade, de cumplicidade discreta. Um amor que se sabe. E procurei-a. Fui sempre procurando, a tentar ser, cada vez mais, essa companheira, a cúmplice, a amada, a amante.
Não sei bem se esta viagem pela vida me destinou esse encontro. Mas no dia em que os meus pais fizeram anos de casados, chorei sozinha por tudo o que não consegui.
Ainda.
Não conheço muitos casamentos felizes. Aliás, nenhum. Fui vendo neles aquilo que ia excluindo para mim - o ciúme, a obsessão, a mentira, a traição, a distância física e emocional. Criei o meu ideal de relação por aquilo que não queria. Seria feita de companheirismo, de verdade, de cumplicidade discreta. Um amor que se sabe. E procurei-a. Fui sempre procurando, a tentar ser, cada vez mais, essa companheira, a cúmplice, a amada, a amante.
Não sei bem se esta viagem pela vida me destinou esse encontro. Mas no dia em que os meus pais fizeram anos de casados, chorei sozinha por tudo o que não consegui.
Ainda.
19.5.10
sábado & domingo
Agora sei que a minha vida, para ser equilibrada, deveria ser feita de fins-de-semana.
Durante a semana, os dias tornam-se às vezes incompreensíveis. Estranhamente incompreensíveis.
Há qualquer coisa que me escapa. Ou talvez não. Talvez haja apenas qualquer coisa que eu quero que me escape.
Até mesmo o pouco tempo de ócio custa.
Durante a semana, os dias tornam-se às vezes incompreensíveis. Estranhamente incompreensíveis.
Há qualquer coisa que me escapa. Ou talvez não. Talvez haja apenas qualquer coisa que eu quero que me escape.
Até mesmo o pouco tempo de ócio custa.
18.5.10
Dia sim
Hoje senti-me bem. Saí de casa a pensar que esta rotina, este entrar no fluxo dos que vão para Lisboa é bom. Poder entrar nele. Olhar o mar verde-azul-esmeralda a denunciar o calor do ar.Poder protestar com o condutor vagaroso na rua das janelas verdes. Poder andar devagar ou depressa. Poder falar com os outros. Poder rir. Poder desesperar, que sem o desepero o riso seria banal.
Hoje senti-me bem assim. A viver.
Hoje senti-me bem assim. A viver.
16.5.10
Eu não queria nascer. A minha mãe contou-me já muitas vezes como foi difícil para mim entrar neste mundo. Fi-la sofrer muito nesse dia quente de Agosto. O mais quente do ano, ao que parece.
Este medo de nascer - gosto de pensar que foi assim desde o início - tornou-se depressa medo de viver. Sempre fui receosa dos outros, da velha que me puxava o lenço da cabeça com bonecos da Disney numa retrosaria do Rossio (e a minha mãe que não me defendia!) e que, por causa dela, cresciam as dores de barriga logo à saída da estação de comboios. Tinha 4, 5 anos.
O medo de não conseguir sobreviver, o medo não ser suficientemente boa. A mania de perfeição de que me acusam e que é apenas, afinal, o medo de falhar até nas coisas mais simples.
Em adulta percebi este erro, se calhar tarde demais para o corrigir. Mas combati-o tanto que me tornei, pelo menos aparentemente, mais forte e decidida que muitos dos que me rodeiam.
Mas sei também que o lenço da Disney está sempre à mão para ser puxado. E aí o medo volta. As dores de barriga enquanto caminho.
Este medo de nascer - gosto de pensar que foi assim desde o início - tornou-se depressa medo de viver. Sempre fui receosa dos outros, da velha que me puxava o lenço da cabeça com bonecos da Disney numa retrosaria do Rossio (e a minha mãe que não me defendia!) e que, por causa dela, cresciam as dores de barriga logo à saída da estação de comboios. Tinha 4, 5 anos.
O medo de não conseguir sobreviver, o medo não ser suficientemente boa. A mania de perfeição de que me acusam e que é apenas, afinal, o medo de falhar até nas coisas mais simples.
Em adulta percebi este erro, se calhar tarde demais para o corrigir. Mas combati-o tanto que me tornei, pelo menos aparentemente, mais forte e decidida que muitos dos que me rodeiam.
Mas sei também que o lenço da Disney está sempre à mão para ser puxado. E aí o medo volta. As dores de barriga enquanto caminho.
Desejo na Feira do Livro
Gostava, mas gostava mesmo, que a minha obrigação na vida fosse agora, tão somente, sentar-me a uma mesa pequenina e pintar desenhos com lápis de cor.
9.5.10
Gostava que fosse assim [um pouco como um cantar antigo]
Não me arrependo das horas que perdi a esperar-te quando ainda havia a esperança /
A esperança que havia ainda quando, a esperar-te, perdi horas de que não me arrependo.
José Luís Peixoto
A esperança que havia ainda quando, a esperar-te, perdi horas de que não me arrependo.
José Luís Peixoto
2.5.10
dever & culpa
Todos os que me conhecem sabem que estes são os meus maiores castradores. Primeiro o dever, e quando acho que não estou a cumpri-lo, a culpa.
Vem, vamos divertir-nos como se não houvesse amanhã. Ao menos, se sentir culpa, terei (talvez) razão para isso.
Vem, vamos divertir-nos como se não houvesse amanhã. Ao menos, se sentir culpa, terei (talvez) razão para isso.
13.4.10
Salvaste-me
Nos pequenos gestos, o impulso enorme da tranquilidade.
Sentir que estás mesmo quando não te vejo.
Sentir que estás mesmo quando não te vejo.
11.4.10
Comentário eliminado pelo autor
Às vezes gostava de clicar "delete" e desaparecer, mas só consigo fazê-lo às palavras.
E este dia que se apaga.Tenho medo dos dias que vêm; mais medo ainda porque o dia que termina me deixa este sabor de solidão, de desencontro. Como enfrentar o inferno dos estranhos, quando os próximos se tornam estranhos também?
Darei o meu melhor, apesar de me sentir derrotada por dentro.
Derrotada.
Tudo o que eu não queria ser.
Darei o meu melhor, apesar de me sentir derrotada por dentro.
Derrotada.
Tudo o que eu não queria ser.
E a incompreensão apoderou-se da noite...
Sorrow breaks seasons and reposing hours,
Makes the night morning, and the noon-tide night.
William Shakespeare, Richard III, Act 1
Makes the night morning, and the noon-tide night.
William Shakespeare, Richard III, Act 1
8.4.10
1.4.10
22.3.10
Futebol
Não aceito a violência programada e ensaiada, num desporto que há muito deixou de ser rei. Não consigo aceitar a bestialidade que vejo. Faz-me medo. Faz-me medo esta violência apetecida.
21.3.10
Vem, noite antiquíssima
...
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos.
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...
...
Álvaro de Campos num dia de poesia
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos.
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...
...
Álvaro de Campos num dia de poesia
18.3.10
14.3.10
às vezes...
... gostava que me mostrasses que compreendes que estou ao teu lado
às vezes...
... o teu olhar parte para aquele lugar secreto cuja porta não sei transpor
às vezes...
...tenho a certeza que é possível
às vezes...
... a certeza
às vezes...
... o teu olhar parte para aquele lugar secreto cuja porta não sei transpor
às vezes...
...tenho a certeza que é possível
às vezes...
... a certeza
mulheres
Neste dia de sol, lembrei-me do cinzento na serra. Mulheres e cabras no frio intenso do Caramulo. No cimo, o zumbido constante das torres aeólicas enquanto a mulher que destestava fotografias, "Ai, sou tão feia!", nos contava sobre dantes, da subida e a descida a pé destes mil metros quase a pique, do isolamento.
E o persistente rumor das hélices preenchia os silêncios, sobrepondo-se ao vento.
A fotografia não tirada foi a daquela mulher, gasta e vestida de negro, tendo as hélices por fundo, brancas e novas. Profundidade de campo: as hélices vão permanecer.
E o persistente rumor das hélices preenchia os silêncios, sobrepondo-se ao vento.
A fotografia não tirada foi a daquela mulher, gasta e vestida de negro, tendo as hélices por fundo, brancas e novas. Profundidade de campo: as hélices vão permanecer.
3.3.10
28.2.10
L.
"She's my person.
If I murdered someone, she's the person I'd call to help me drag the corpse across the living room floor. She's my person."
Grey's Anatomy
If I murdered someone, she's the person I'd call to help me drag the corpse across the living room floor. She's my person."
Grey's Anatomy
27.2.10
Chuva
E Lisboa que se afoga na chuva. Os chapéus e as gabardinas já cansam... Assim que o sol vier para ficar por uns dias, estaremos tão sedentos dele como um escandinavo.
26.2.10
Cafés, etcetera e tal II
Será que hoje vi mesmo um porteiro na Brasileira, ou imaginei? Sim, um porteiro daqueles das discotecas, vestido de preto, com auricular e ar de poucos amigos...
Cafés, etcetera e tal
Esta semana fui duas vezes ao Chiado. Depois de dias atarefados, relaxei um pouco nos antigos Armazéns, agora centro comercial sem escadaria de madeira ou lustre.
Abriu lá um "Starbucks". Eu, que corri para o primeiro Starbucks que vi em NY (só os conhecia de filmes e sou uma deslumbradinha) e depois em Londres, fiquei exultante com o facto de ter estes magníficos cafés aqui mesmo à mão. Mas somos um país onde o café reina e qualquer abatanado bate aos pontos um "grande", o que torna o Starbucks menos irresistível. Os espaços são óptimos para relaxar, sem dúvida, ou...
No outro dia, falavamos no trabalho do hábito de no Starbucks se chamar as pessoas pelo nome para entregar o pedido. Então, porque não dar outro nome? Uma colega disse que um amigo tinha dito que era o Pai Natal e logo surgiram Garanhão, Jeitosa, Fode Mané (este, por incrível que pareça, é verdadeiro)... Ora, pois. Quem pensou neste tipo de organização não conhecia os portugueses.
Combinámos uma ida ao Starbucks de Belém. Estou para ver.
Abriu lá um "Starbucks". Eu, que corri para o primeiro Starbucks que vi em NY (só os conhecia de filmes e sou uma deslumbradinha) e depois em Londres, fiquei exultante com o facto de ter estes magníficos cafés aqui mesmo à mão. Mas somos um país onde o café reina e qualquer abatanado bate aos pontos um "grande", o que torna o Starbucks menos irresistível. Os espaços são óptimos para relaxar, sem dúvida, ou...
No outro dia, falavamos no trabalho do hábito de no Starbucks se chamar as pessoas pelo nome para entregar o pedido. Então, porque não dar outro nome? Uma colega disse que um amigo tinha dito que era o Pai Natal e logo surgiram Garanhão, Jeitosa, Fode Mané (este, por incrível que pareça, é verdadeiro)... Ora, pois. Quem pensou neste tipo de organização não conhecia os portugueses.
Combinámos uma ida ao Starbucks de Belém. Estou para ver.
24.2.10
22.2.10
19.2.10
E o rapaz movia-se de forma delicada, em silêncio e passos miúdos. Nos quadros em volta o dourado e o vermelho dominavam, mostrando paisagens e figuras orientais em cenários lisboetas. Lá fora, o Rossio mostrava-se magnífico, límpido nas luzes da noite.
E o rapaz tinha um ar frágil, baixando a cabeça em cumprimentos, agradecimentos. Suave, sereno. Um bolo de chá verde na mão disposto com perícia e harmonia no pequeno prato. Lá fora, a rua do Carmo ia ficando vazia sob os focos dos candeeiros. Preto e branco como as cores do kimono de Noe.
E o rapaz esperou-nos à porta e agradecer a visita. Um aceno respeitoso, um sorriso, que retribuímos.
O Japão em Lisboa.
E o rapaz tinha um ar frágil, baixando a cabeça em cumprimentos, agradecimentos. Suave, sereno. Um bolo de chá verde na mão disposto com perícia e harmonia no pequeno prato. Lá fora, a rua do Carmo ia ficando vazia sob os focos dos candeeiros. Preto e branco como as cores do kimono de Noe.
E o rapaz esperou-nos à porta e agradecer a visita. Um aceno respeitoso, um sorriso, que retribuímos.
O Japão em Lisboa.
8.2.10
Pois, ele há...
... dias mesmo, mesmo enguiçantes. Saímos de casa atrasados, a pasta abre-se e cai tudo lá de dentro ao entrarmos no elevador, não nos lembramos onde pusémos o carro, os sinais parecem todos vermelhos, as pessoas parecem todas demasiado lentas. Pedi um café, apressada... Hmm, parece que ela se mexe em câmara lenta só para me irritar. Diria mesmo que goza com o meu stress. Corro para o gabinete, levanto-me, sento-me, levanto-me... Corro, corro. A chefe está num dia não - até para o que havia tempo deixou de haver... mais um problema para resolver. O dia voa, o que se fez? Parece que nada. De volta ao carro, trânsito e mais trânsito. Todos se metem à frente. Saiam, saiam, que estou com pressa. Chego a casa e é demasiado tarde. O sono vence.
Ele há dias em que a vida passa por nós e finge que não nos vê.
Ele há dias em que a vida passa por nós e finge que não nos vê.
29.1.10
25.1.10
17.1.10
uma tarde na ópera
O S. Carlos desperta-me sempre o imaginário feito de vestidos de seda e saias armadas, pequenos binóculos e comentários por detrás dos leques. Do meu lugar podia ver a plateia e os outros camarotes, observar que estava e quem entrava, tal como as senhoras de antigamente. Nessa época seria velha, parideira de muitos filhos já adultos, quem sabe.
As luzes apagam-se. A opereta de Bernstein traz-nos as frustações das aparências em casais de relações apodrecidas. Sempre actual. Prendeu-me o cenário, depurado e criativo, distante das madames e dos vestidos de seda.
Quando nascer outra vez talvez seja cenógrafa. Ou cantora de ópera.
As luzes apagam-se. A opereta de Bernstein traz-nos as frustações das aparências em casais de relações apodrecidas. Sempre actual. Prendeu-me o cenário, depurado e criativo, distante das madames e dos vestidos de seda.
Quando nascer outra vez talvez seja cenógrafa. Ou cantora de ópera.
Como explicar isto?
Perguntaste-me já várias vezes porque nunca me tinha casado. De alguma forma, aos teus olhos de adolescente, isso parece-te impossível. Sinto-me lisonjeada. Vês-me capaz de ser mulher e mãe, caminhos que nunca percorri. Se pudesses compreender, dir-te-ia que nunca consegui ser a esposa, mas a amante, nunca a certeza mas o risco, (quase) nunca a família mas a marginal, nunca a rotina mas a paixão. Não te poderia explicar melhor o que nem a mim, muitas das vezes, me faz sentido.
15.1.10
Ele há coisas...
...que dão prazer ver, embora quando se colocam grandes expectativas, há sempre lugar a (alguma) desilusão.
12.1.10
Sonhei novamente contigo como há três dias para cá. O coração apertado na madrugada desperta. Oiço o teu respirar, enquanto vagueias em sonhos num mundo que não conheço, do outro lado de ti. Lá fora, a chuva e o vento fustigam a noite e a manhã chega a medo. Dói-me o corpo de ontem. Dói-me o corpo todo ainda. Dói-me a alma também.
"Olá, stôra!" solta-se um riso entre a chuva que ensopa. Um riso solar, empurrado pelo vento gelado.
"Olá! Então, a noite foi boa?"
"Olá, stôra!" solta-se um riso entre a chuva que ensopa. Um riso solar, empurrado pelo vento gelado.
"Olá! Então, a noite foi boa?"
10.1.10
Hu
Chega a 14 de Fevereiro e traz boas notícias. Três felinos que se cruzam e onde coragem é a palavra chave.
Coragem. Vamos a ela.
Coragem. Vamos a ela.
8.1.10
A minha alma, de vez em quando...
Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer.
Fernando Pessoa
Fernando Pessoa
em dois dias
os beirut da j.
(e a l. sabe tocar acordeão)
a caneta futura do passado
no escuro do cinema e em coro
a fascizóide minha casinha que os xutos trouxeram dos anos 40 (as coisas que tu sabes!)
o alegre maldisposto que sabe que o mar na costa da mauritânia tem (às vezes) a mesma cor que o tejo
há pouco estranhos
agora
quase
amigos
rir nesta viagem a bordo de um fugotam
(e a l. sabe tocar acordeão)
a caneta futura do passado
no escuro do cinema e em coro
a fascizóide minha casinha que os xutos trouxeram dos anos 40 (as coisas que tu sabes!)
o alegre maldisposto que sabe que o mar na costa da mauritânia tem (às vezes) a mesma cor que o tejo
há pouco estranhos
agora
quase
amigos
rir nesta viagem a bordo de um fugotam
6.1.10
Soube-me bem ouvir...
Pedes-me um tempo,
para balanço de vida.
Mas eu sou de letras,
não me sei dividir.
Para mim um balanço
é mesmo balançar,
balançar até dar balanço
e sair..
Pedes-me um sonho,
para fazer de chão.
Mas eu desses não tenho,
só dos de voar.
Agarras a minha mão
com a tua mão
e prendes-me a dizer
que me estás a salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer,
mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde
e não ter
nem sentir
o vento ardente
a soprar o coração...
Pedes o mundo
dentro das mãos fechadas
e o que cabe é pouco
mas é tudo o que tens.
Esqueces que às vezes,
quando falha o chão,
o salto é sem rede
e tens de abrir as mãos.
Pedes-me um sonho
para juntar os pedaços
mas nem tudo o que parte
se volta a colar.
E agarras a minha mão
com a tua mão e prendes-me
e dizes-me para te salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer,
mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde
e não ter
nem sentir
o vento ardente
a soprar o coração.
Mafalda Veiga
para balanço de vida.
Mas eu sou de letras,
não me sei dividir.
Para mim um balanço
é mesmo balançar,
balançar até dar balanço
e sair..
Pedes-me um sonho,
para fazer de chão.
Mas eu desses não tenho,
só dos de voar.
Agarras a minha mão
com a tua mão
e prendes-me a dizer
que me estás a salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer,
mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde
e não ter
nem sentir
o vento ardente
a soprar o coração...
Pedes o mundo
dentro das mãos fechadas
e o que cabe é pouco
mas é tudo o que tens.
Esqueces que às vezes,
quando falha o chão,
o salto é sem rede
e tens de abrir as mãos.
Pedes-me um sonho
para juntar os pedaços
mas nem tudo o que parte
se volta a colar.
E agarras a minha mão
com a tua mão e prendes-me
e dizes-me para te salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer,
mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde
e não ter
nem sentir
o vento ardente
a soprar o coração.
Mafalda Veiga
2.1.10
Passava-lhes
- Empresto-o uma semana, um mês, não precisam de mais - disse-me ela sobre o seu marido que todas invejam. Admiro esta mulher; acho que sabe viver bem.
O marido, um homem alto e bonito, com ar ternurento que muitas mulheres romanceiam, sempre foi cobiçado. Ela sempre se debateu com situações incríveis, muitas constrangedoras, por culpa de mulheres sem cautela ou decoro, cativadas por abordagens encantadoras e, supostamente, interessadas.
- Pois, pois, continua ela ao telefone, querem-no porque não o têm. Gostava de as ver partilhar manias, amuos, alheamentos. Um mês e passava-lhes logo o encanto.
Acredito. Do príncipe ao sapo.
O marido, um homem alto e bonito, com ar ternurento que muitas mulheres romanceiam, sempre foi cobiçado. Ela sempre se debateu com situações incríveis, muitas constrangedoras, por culpa de mulheres sem cautela ou decoro, cativadas por abordagens encantadoras e, supostamente, interessadas.
- Pois, pois, continua ela ao telefone, querem-no porque não o têm. Gostava de as ver partilhar manias, amuos, alheamentos. Um mês e passava-lhes logo o encanto.
Acredito. Do príncipe ao sapo.
O ano pode ser mesmo novo?
A chegada do novo ano traz a obrigação de tomar decisões, fazer resoluções, etc e tal. Canso-me só de pensar nisso. Faço votos, mando mensagens e enquanto animo os outros definho um pouco - serei eu capaz de mudar?
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