23.12.09

Natal

Pois, cá está. E como sempre, estou com défice de presentes. Bullocks!

20.12.09

Frio e mentiras

Gostava de ter voltado a escrever com alegria, mas este cursor num fundo branco conduz-me sempre à tristeza.

Hoje, o frio corta e a minha rua é quase nórdica. Ponho o meu gorro e cerro os lábios."Estás tão magra", dizem-me a explicar o gelo que me atravessa.

Recordo momentos já distantes, numa viagem a um sentimento que desconhecia. Penso como é assustadoramente fácil mentir a pessoas que confiam em nós. Muito mais frio que este frio transparente e cortante.

1.12.09

Tempo

O tempo é um perturbador de vontades, disseram-me hoje. Sei-o bem demais. Tempo. Vontade. Falta de tempo. Demasiada vontade para fazer tanto mais do que apenas trabalhar. Na minha vida ultimamente há um choque permanente que me esmaga, que me torna os dias pesados.

E o tempo que passa... E a vida que me cansa.

27.11.09

É oficial

Tem de ter cuidado, diz-me a médica. Séria. Preocupada. Conhece-me desde adolescente e sabe ler os sinais. Eu olho de viés para os comprimidos com vontade de os atirar pela janela fora, receosa dos efeitos que possam surgir.

Li na Net que sexo, vinho, tomate e vitamina B6 também ajudam à coisa. Melhor, muito melhor que estes comprimiditos azuis com duzentas mil contra-indicações.

E tudo isto com uma semana de férias? Ficava, de certeza, como nova...

22.11.09

(in)felicidade-clique

Discordando do que li hoje, escrito com uma certa ironia, valorizar o bom que se tem na vida nunca poderá trazer felicidade "automática". Clique - sou feliz.

Não significa não ter sonhos, não desejar. Significa apenas olhar em volta e VER.

Comecei a fazer isto nos últimos anos. Perceber que todos os sentimentos são necessários. Que as coisas boas e as más existirão sempre. Procurar o equilíbrio. É um esforço individual, exigente, mas que nos torna melhores para nós e para os outros.

Digo-vos da experiência o que é bem mais fácil - a infelicidade-clique. Agora só tem permissão para atacar às vezes.

21.11.09

nataliedee.com
nataliedee.com


Acendo a lareira e cubro-me com a manta... tenho sonhos de lã.

20.11.09

deserto

No último mês atravessei o deserto. Um deserto que é só meu e que, mais uma vez, me veio buscar. Fragiliza-me. Expõe-me a todas as palavras e gestos, choro e risos dos outros. Não o conto, nem explico a ninguém. O quotidiano prossegue como se nada fosse e respiro fundo de cada vez que se torna (quase) insuportável. Seria fácil argumentar com depressões, mas sei que é pior, muito pior, escondermo-nos.

Respiro fundo... bem... fundo. E caminho.

É escuro este deserto. Fere.


Ao longe, espero que a margem azul me espere.

19.11.09

Hope someone will

There's a ghost on the horizon

When I go to bed

How can I fall asleep at night

How will I rest my head






Antony and the Johnsons

pais vs filhos

Há pais que erraram a sua vocação. Entre estes há pais separados. Marcados pelo insucesso da sua relação, fazem dos filhos cavalos de batalha, fragilizando-os sem hesitar. Tornam-nos inseguros sobre o que é amar, inseguros sobre quem amar, obrigados a espartilhar e a esconder emoções. Justificam atitudes invocando amor incondicional.


Não compreendo.

Amor é altruísmo. Sempre. Acima de tudo. Eles.

12.11.09

Homens I

Houve relações em que me acusaram de ser egoísta. Tiques de filha única. Nunca concordei porque conheci pessoas com irmãos que eram verdadeiros balões de eu, eu, eu. Ser obrigado a partilhar, não é, claramente, sinónimo de altruísmo. Mas fui-me modificando, amadurecendo.


Ultimamente tenho visto um homem pressionado, perseguido e a amar... Obrigado a correr de um lado para o outro para fazer vontades, por caprichos e amuos que ele acha naturais. E a amar... Cansado.


Mesmo nos meus piores tempos nunca fui assim. Como mulher, irrita-me esta passividade. A anuência. Já conheci outros homens que vivem relações assim e nunca irei compreender. O que será que gera o amor por estas mulheres-sorvedoras?

9.11.09

Afinal...

... pensava que já tinha as mãos mais cheias.

Quem não se ama...

pois

A sua vida parece-lhe a de uma outra pessoa. Talvez seja isso. Não poder reconhecer-se por completo no que faz, diz, deseja. Uma crescente discrepância. Uma diminuta, mas perceptível, perda de nitidez nos contornos. Como se a sua verdadeira vida se tivesse despegado da vida que leva e, com o tempo, a distância entre elas fosse aumentando e a reconciliação se tornasse cada vez mais improvável. Uma pessoa não é quem quer ser, não faz o que gostava mais do que tudo fazer, não dita a vida que a leva consigo. Talvez seja isso. O que acontece desde sempre quase sempre a qualquer um. Salvo nos momentos de paixão em que vivemos a tremenda certeza de estarmos a ser quem somos. (...)

Pedro Paixão, Rosa Vermelha em Quarto Escuro

estética

o site do pedro paixão é muito bonito

e tem polaroids.

8.11.09

neste fim-de-semana apenas aqui e ali sorrisos e o prazer de conversar

de resto, a solidão imperou sem vontade o corpo para outra coisa que não fossem abraços. beijos-abraços.

começa a semana. mais uma.

vai ter que ser melhor.


olho o meu buda de sorriso sereno. Ele sabe o que quero.

4.11.09

Track 4

Conduzir à esquerda faz-me confusão... Misturam-se os sentidos, violentamos os instintos. Na paisagem verde, restos de neve anunciam o fim do inverno. Estou cansado. Paro e o ar cortante entra pela janela que desliza indolente.

Sinto os pés gelados e os ventos que cantam cortam-me ainda a pele. Lembro-me do adeus e dos teus olhos que escureciam a cada palavra.

Retomo o caminho para a cidade. É linda. A mais linda depois daquela em que nasci, a muitos quilómetros daqui. O castelo domina as ruas antigas, escuro e imponente. Os teus olhos escurecidos como este castelo sob o céu pesado.

Fugi para aqui, porque a distância apressa o esquecimento. Falar outra língua modera as emoções.

Dar-te a mão no alto destas muralhas de onde se vê o mar (lembras-te?). Sempre o quis fazer.

3.11.09

Ai, vou ser excomungada

Pois vou.

Uma letra escarlate no peito:

"I" de Incapaz.
Há uma autora de um blog que trabalha ao pé de mim. Sei-o pelos seus textos, pequenas pistas de locais conhecidos, aqui e ali um nome de rua, a vista de uma janela. Não deixa lugar para comentários aos seus textos. Acho bem. Mas gostava de lhe dizer que escreve textos que me emocionam - por vezes ficção (parece-me), outras vezes comentários a factos da actualidade, outras ainda reflexões sobre o seu quotidiano. Sempre bonitos, fluidos.

Sim, gostava de a conhecer.

E se pusesse ali em baixo um papel "procuro .......?"

29.10.09

Winter

Aqui está ele.

28.10.09

Celebrações

Hoje enquanto batalhava com o Halloween, pensei na relação de distância que tenho com (quase todas) as celebrações. Senão, vejamos:
- o Halloween tem o seu quê de lúgubre
- o Natal enerva-me - a pressão das compras que se sente no ar é insuportável (enfeites de Natal em Outubro, poupem-me...)
- o Dia de Ano Novo confirma a inexorável passagem do tempo
- a Páscoa tem alguma profundidade - o sacrifício e a salvação (gosto mais)

E ainda, S. Valentim. O não-dia. Não fosse uma querida data de aniversário, Fevereiro seria mesmo o não-mês. Delete.



Num S.Valentim, eu e a minha irmã escrevemos mensagens de amor a todos os amigos que não tinham namorados(as). E demos um jantar feito de romance(s).

Esse... foi lindo.

20.10.09

Hoje...

... apeteceu-me ir lanchar à Confeitaria Nacional, sentar-me na cadeira sem chegar com os pés ao chão, comer uma sandes de fiambre em pão de forma e deixar a côdea no prato. Ah, e beber um quarto de Vigor (gordo) morno.




As responsabilidades andam a chatear-me, é isso.

viagem III

Em viagem vejo o executivo jovem, com olhos sós e três telemóveis sobre a mesa do comboio. Vejo o rapaz a beijar com carinho a namorada que parte e logo a sentar-se junto a outra mulher. Vejo a chuva. Vejo as letras do folheto que bailam e me enjoam neste alfa apressado com cheiro a estofos sujos. Vejo a paisagem triste de casas velhas e um restaurante miratejo de onde não se vê o rio. Vejo uma mãe, vestida como prostituta barata, sempre desconfiada. Vejo as núvens -umas baixas e outras altas mais brancas a anunciar o bom tempo. Vejo quem me telefona. Respondo. Vejo o café que me servem, antecipo o sabor. Vejo a minha manga do casaco que recupera da chuvada e retoma a cor normal. Vejo este teclado onde conto o que vejo. Acho que já ninguém me vê. Transparente.

18.10.09

E subitamente...

...este peso daquilo que nem aqui sei dizer, onde poucos me conhecem e poderia desvendar o coração.

...este peso sobre o peito, feito de todas as doenças, desencontros, palavras-punhais e reflexos indesejados que se reúnem e se alimentam.

Uma palavra. Montanha.

E perco o fôlego.

Bolero pela rua

Hoje chegava a casa e pareceu-me ouvir um acordeão... Som inesperado num domingo de manhã. De facto, um homem com sotaque estrangeiro tocava boleros pelo largo, sorrindo para as janelas e a quem passava. Um acordeão de teclas sujas num homem de roupas pobres.

Não tinha dinheiro comigo. Foi pena.

Obrigada pelo Besa me mucho.

Soube bem.

14.10.09

Praia da Cruz Quebrada

Hoje de manhã na Cruz Quebrada o rio-quase-mar era de prata e as ondas breves tinham a indolência de uma praia tropical. Neste Outono feito pino do Verão, quase vi grupos de banhistas junto à margem. O meu pai, com 8 anos, a jogar à bola.

Outro bosque

Hoje li um texto sobre o Júlio de Matos. Entrei lá a primeira vez há menos de dois anos. Se já tinha entrado antes - e acho que sim - não retive qualquer lembrança. Foi com surpresa que conheci este hospital de pequenos pavilhões rodeados de relvados e árvores de grandes copas. Foi no Outono, esta visita; o amarelo e o ocre das folhas dominavam. Aqui e ali figuras sem destino caminhavam lentamente entre enfermeiras e médicos apressados.

Lembro-me de sentir paz e de me apetecer ficar ali. Num hospital. Ali onde, por diferentes razões, há vidas que perderam rumos. Medo de ver esse outro lado tão perto, lembrar que pode ser tão delicada esta passagem. Um momento. Um clique.

- O que me distingue de ti?

- Ainda poder ir para casa, talvez.



Sempre o soube.

"Há um bosque encantado no meio da cidade" (Ana de Amsterdam)

8.10.09

Mercy

Esperei por estas asas que esperaram por mim.

Viajei, assim, por outros espaços onde é subitamente noite. Numa sala grande e quase vazia, a música de uma pequena banda ecoa e um par dança ao som do saxofone de circo.

A paz estranha de quem não tem os pés no chão.

O perdão em notas dissonantes.

27.9.09

Durmo e acordo com a tranquilidade de um início de férias. Neste quarto-prazer, sons diferentes vão povoando as noites e as manhãs -o bebé que chora, o relógio de sala que dá horas dolentes, o casal que se ama com solavancos ritmados, o homem atraiçoado que ouve a mesma canção obsessivamente.

Ainda não conhecia os pássaros. Estremunhada, acordo com um chilrear alegre e desenfreado de dezenas de pássaros que enchem as árvores vizinhas. Fecho os olhos - por minutos, esta selva de cimento é um bosque, a margem de um rio, um pomar.



E este quarto é uma sombra fresca, um barco a remos, o cheiro das maçãs.

24.9.09

Fed up

Vivo na antecipação do amanhã.
O descanso, enfim.

O sorriso.

A propos

A propósito de os blogs poderem ser (afinal) reflexos de nós, nos nossos diferentes sentires... textos que se arrancam de nós...

Ce papier c'est ma voix. Cette encre c'est mon sang. Cette lettre c'est moi.

Cyrano de Begerac

22.9.09

Expiação

Trabalho sem cessar. Doze horas hoje. Os pés em ferida.

Expio o pecado que nunca cometi.

21.9.09

Prova

Hoje vivi mil dias num só.


Mas vi por entre os gritos das crianças, duas mãos que se entrelaçam

Por entre papéis sem nexo, um abraço não-pedido

Entre toques do telefone e números frios, um beijo doce

Por entre suores da corrida, a cumplicidade de um olhar

Vi tudo isso, aqui. No desespero, vi o amor

Vi.

20.9.09

Palavras

Fazemos coisas com as palavras e as palavras fazem coisas connosco - lembra-me hoje Foucault.

A L. diz que as palavras podem ser uma treta. Quem as escreve pensa A, quem as lê pensa Z. Há quem seja hábil com as palavras, as use com primor, sem no fundo, dizer nada do que vai mesmo no fundo da alma. Quantas vezes julgamos da profundidade das pessoas pelo que escrevem e afinal .... Há também quem use muitas palavras, incompreensíveis na sua sintaxe elaborada, só pelo prazer da verborreia.

Mas as palavras podem mesmo fazer tantas coisas connosco... maravilhosas ou terríveis. E estão sempre lá, as palavras, - preto no branco, branco no preto - prontas a fazer-nos rir, chorar, amar e desesperar.



Já disse aqui que acredito que houve um livro que me salvou há muitos anos. E a propósito das palavras, a vitória do simples, nesse livro:

Hoje colhi todas as rosas dos jardins e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Poema para o meu amor doente, Eugénio de Andrade

would I erase you?

Eternal
Sunshine
of
the
Spotless
Mind

19.9.09

dias azuis

Os lugares de fuga são sempre breves; só isso lhes dá encanto. À medida que deixam de ser fugas e entram pelos dias adentro, o cinzento apodera-se deles, como de tudo o resto, e o pó acumula-se sobre as cores, os cheiros, as peles.

Na insónia recordo. Sim, recordo. Quem se lança na busca desenfreada de um amor que salve, de um trabalho desejado, sem saber (ou a saber, sem querer saber) que haverá sempre enormes pequenezas que nos vão estragar o sonho.

Foi há alguns anos. Era um príncipe, alto e culto, tenho a certeza que amava. Um amor perfeito feito nas histórias de encantar. Era ali o lugar certo para estar. A inveja dos outros, da maravilha. Acabou, esgotado pelas rotinas.

Aprendi, como já tantas vezes disse, que a chave é conseguir fazer da rotina pequenos encantos. Só o tempo nos ensina a fazê-lo. O tempo para aprender, a paciência para o fazer. Foi pena ser há alguns anos. Hoje, liberta das exigências do agora, saberia ter este príncipe.

Olho as pessoas que me rodeiam, numa azáfama que chefio. Está a tornar-se insuportável. Contrario-me e rodopio com elas. Ponho a minha energia nesses momentos - sugiro, procuro a colaboração. Entre iguais. Tento fazer do difícil, fácil. Acho que me olham de forma diferente. Tocam-me pela primeira vez. Dizem-me da energia (como, se não dormi?). Elogio a disponibilidade - um deles é bonito, jovem, quase um aluno. Sorri, satisfeito. Quer ajudar mais. Brinco com ele. Brinco com todos. Surpresa pela teaser que desconheciam.

Duas situações diferentes. Um mesmo sentimento - saber fazer do cinzento, azul. A minha Cor.





tempo. paciência.




vontade

18.9.09

Abri a janela e vesti-me de cinzento como o dia. Pode ser que assim me misture com a chuva e ninguém me veja ou diga o meu nome.

Da estrada vai surgindo, enorme, a foz, cinzenta também. Digo-lhe How Beautiful, vamos? Largo os pedais e o volante, o motor optimizado ronrona, concordando. Leva-me ao meio do mar. Acelera, lisonjeado, e lança-se em voo.


Sempre acreditei que voasse.



Até.

"...e há palavras homens..."

Há dias que não deveriam nascer. Demasiado pesados - trabalho, doença. Sem risos, nem beijos que contagiem.


Subitamente, fica frio. É inverno outra vez.




Palavras que regressam.

16.9.09

bRuNcH





Pena não ser domingo.

Isto é tudo a fingir

papel
cadeiras
mesas
pais
alunos
professores
gripe a
autocarros
autorizações
mapas
jogos






absurdemos a vida, de leste a oeste.

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

Deixa-me, fogo

gritava a rapariga em voz alta e descontrolada. E fugia dele, que corria atrás dela, não sei se para se explicar, se para a impedir de expor o seu desespero.

- Deixa-me, deixa-me! - gritava, com voz de choro - deixa-me em paz, fogo!

De repente, o silêncio. Deixei de a ouvir. Procurei vê-la entre os carros. Que lhe teria acontecido? E aos seus gritos tão sentidos?

Sempre detestei parques de estacionamento. Lembram-me perseguições, crimes.

Subitamente, imaginei-a caída. Estrangulada.

Ontem, no Colombo.

10.9.09

Apeteceu-me





Soave sia il vento
Tranquilla sia l'onda
Ed ogni elemento
Benigno risponda
Ai nostri desir


W.A. Mozart, Cosi Fan Tutte

Fácil Difícil

É fácil rir quando nada nos preocupa. Quando as férias nos enchem os dias, quando as noites são de amigos. Rimos sem pensar num mundo que nos atrapalhe.

Difícil é rir quando tudo nos cansa. Quando os dias são de atropelos, de barreiras.


Esse riso é uma enorme vitória de luz e cor sobre a escuridão.

7.9.09

Mas não é.

Trazes-me o quotidiano. Alguns desesperos e a esperança de dias sempre melhores. A vida.


Subitamente, os desesperos da noite, o ruído ensurdecedor da madrugada desaparecem. Faz-se claro ali, mesmo que a escuridão volte sempre mais tarde para nos apagar.

Por momentos respiramos fundo e sorrimos. Rimos até. Desentendemo-nos para nos encontrarmos.

Parece banal.


Parece.

3.9.09

Vou deixar para amanhã...

nataliedee.com
nataliedee.com

Sinal vermelho

Paro num sinal vermelho. É fim de tarde e a cidade enche-se de gente que corre para cá e para lá, fartos de trabalho sem sentido na pressa da casa. Gente que atravessa. As pernas quase simétricas no mesmo ritmo.

Um casal na beira do passeio. Ele estático, de mãos nos bolsos, olha para a direita. Ela olha para ele, abraça-o. Beija-o. Ele, de mãos nos bolsos. Mãos. Bolsos. Olha para esquerda, para nada. Olha para fugir ao beijo, aos olhos dela. Olha para o vazio. Mãos. Bolsos. Hirto.

Nada. Num sinal vermelho.

15.8.09

Lentes

Três semanas se passaram desde o último post. Podiam ser três meses ou três anos, tanto que aconteceu. Apetece-me fazer aqui um balanço em jeito de brincadeira, que aprendi com a L. e que consiste basicamente em desenvolvermos a capacidade de enfrentar os problemas com lentes de alta (re)solução:

O pior - a doença do meu pai, o desgaste da minha mãe (muito acima dos seguintes piores), um acidente e uma avaria no carro, um cano a deitar água para casa dos vizinhos, um imenso banco de recursos por organizar.

O melhor - as melhoras do meu pai, a resolução do acidente e da avaria, o seguro que vem reparar o cano e, ainda, (e tão importante) aquela exposição de fotos tão desejada e merecida que me vai deixar inchada de orgulho.

O que está a dar: ver os espectáculos fantásticos que Lisboa tem para oferecer em Agosto, comer e beber em sítios de rico (eh eh eh)... a partilha do bom e do mau...

O que não está a dar: a falta de uns mergulhos, não poder gozar todos os dias de férias de que tanto preciso...

Qual o balanço? Positivo.

Mas agora vou dar o mergulho - um, só unzinho - que bem mereço.

21.7.09

regresso I

Ah, como foi bom regressar! Ver a minha cidade do céu...

Uma viagem ainda cheia de imagens e sensações: um hotel no centro, romântico mas sem romance, as estações de metro apinhadas; o medo da gripe, que não se fala de outra coisa; os enjoos das montanhas russas; um pequeno ciclone numa noite de calor; stora, stora; a rapariga que quer fazer a diferença, mas ainda não sabe como.

É bom estar de volta. Muito bom.

7.7.09

olhar

Sim, é verdade.

Há momentos em que os olhares se encontram ao som do oriente e vejo o mergulho de que falas.

viagem II

Viajo em breve.






Com medo da minha ausência.

viagem I

Viajo em breve.

As viagens causam-me sempre medo, mesmo que o que me espere seja, à partida, o espanto e a alegria. As viagens de trabalho são duplamente penosas. Detesto-as.

Esta viagem é de trabalho. Mas diferente de outras. A razão que me leva a viajar é uma aluna que foi premiada por mérito. Esta viagem é o seu prémio.

Ela, feliz na antecipação, pergunta-me tudo sobre o que vamos fazer. Dezoito anos e uma vida cheia de momentos difíceis. Dezoito anos e uma energia luminosa.

Eu brinco com ela, digo-lhe horas absurdas para levantar, quilómetros para percorrer. Ri-se. Os dezoito anos são, subitamente, cinco, seis anos.

Quer que a leve às compras. Gosta de compras,como eu. Podia ser minha filha e eu estaria orgulhosa dela. Como estou, mesmo sem o ser.

Hoje fez um exame e teve 19. Sente-se feliz. Dezoito anos e já conduz sozinha em Lisboa, cidade onde nunca viveu, numa vida feita de itinerâncias.

Fala-me de amor e da vida que espera ter. Que mais iremos dizer nesta viagem?

- Stora?

3.7.09

stuck in reverse

Eram mais de duas horas da manhã quando adormeci. Acordei às seis. Quatro horas de sono e eis-me já de novo ao computador.




Mas às vezes é muito bom dormir pouco.

2.7.09

Quando estou triste, tudo o que me pesa de repente acorda e sufoca-me.



Toca Keith Jarret "Someone to watch over me"




A melancolia acentua-se e espicaço a minha tristeza. Ver até onde aguento.

- Vou encontrar-me com um amigo. [Era Fevereiro. Um dia em que eu te queria]

Nessa noite nasceram palavras que me magoaram. Estão lá, como num livro no fundo de uma prateleira. Sem catarse. Ver até onde aguento.

28.6.09

solta-se ou não se solta?

amanhã

... ponho o meu ar mais sério para falar de currículo, módulos e LOs perante um grupo de especialistas na área. Gosto deste tema. Falo com convicção sobre ele.

Mas a dirty diana em mim está com vontade de se soltar. E se fosse amanhã durante a reunião? Tipo Eli Stone, mas real. Era giro.

23.6.09

Isto dos blogues consegue às vezes ser mesmo um bela bosta.

- maledicência
- traições
- perseguições
- ameaças


E nem sequer temos a pessoa à nossa frente para lhe pregar um valente murro.

... Na realidade, quem é essa pessoa?
Todas as pessoas precisam do seu espaço de silêncio. Levei tempo a perceber isto, mas tive que reconhecer essa necessidade em mim para o compreender. Todos precisam do seu espaço de silêncio.

Mas há silêncios que aproximam, um respirar sem palavras.

E há silêncios escuros, feitos para afastar.
Duros, são paredes, portas trancadas, mãos fechadas. Segredos.

Silêncios de sofrimento, às vezes ... só eu posso resolver.


Onde a cumplicidade não tem lugar.

20.6.09

tomas conta de mim

- Já sabes, quando formos mais velhas tens que tomar conta de mim.

- Tu és tão rija. (riso)

- Mas vou dar em maluca, já sabes.

- Sim, não te preocupes.





(Disse-te e repito-te: enquanto eu viver, nunca estarás sozinha.)

parabéns

(eu) Olá, tio.
(ele) Olá, sobrinha.
(eu) Parabéns! Está melhor?
(ele) Sim, sinto-me muito melhor...



(ele) a minha menina...



tio, tio, já sei andar de bicicleta! És esperta, sabia que ias aprender depressa. Mas não gosto de descer as ruas, gosto mais de subir. Vais gostar de aprender a descer sem dares aos pedais. Tio, tio, posso subir à árvore e apanhar ameixas? Vê lá não caias. Tem cuidado. Tio, tio vou apanhar as ervas que crescem aqui. Calça estas luvas para não te picares nas urtigas. La, la, la, gosto tanto de estar aqui. Tio, tio, quando crescer quero ter um dois cavalos. Se eu tiver dinheiro, ofereço-te um.


A menina dele.

19.6.09

olá

(tu) Olá, maluca.
(eu) Olá, maluca tu.
(tu) Como foi o teu dia?
(eu) Muito difícil.
(tu) Que tragédia... Mas estás viva?
(eu) Sim. Parece que sim.
(tu) Então, está tudo bem.

Aprendi contigo a relativizar as coisas. Ensinei outros a relativizá-las e com isso aprendi ainda mais. Acho que sou melhor pessoa. Acredita. Sou melhor pessoa agora.

Mas cansam-me estes dias cheios de dificuldades. Cansam-me os poucos espaços para sorrir (compreendo agora A.L.B. quando escreve que é tão difícil sorrir). Não fui feita para isto - ser esta pessoa acinzentada. Apetece-me muito deitar a língua de fora e dizer, como tu tanto gostas, *#$*"[*@*****

18.6.09

este frio... de novo

e

subitamente

no calor deste dia

soprou um frio de deserto



Não. ;)


Outra vez, não. ;) ;)


Acho que se me despir, vou resistir melhor.

Ou apanho uma valente constipação?

14.6.09

2.23

Ainda não consigo explicar como é que é possível estar a trabalhar até esta hora a um sábado. Mas o facto é que estou.

E não é a esmerar-me (o que sempre me levou a trabalhar mais horas). É simplesmente a fazer o que não estava feito. E a correr.

Bummer.

13.6.09

Abaixo!

Ah, e abaixo a monarquia... :)

hoje percebi...

...mais uma vez porque que é que há pessoas que nos fazem felizes. São aquelas com as quais podemos ser verdadeiramente nós próprios e partilhar tudo sem paredes - das questões mais profundas dos nossos sentimentos até às razões pelas quais não conseguimos usar camisas sem nos desfraldarmos.

Que mestria esta de algumas pessoas no uso das camisas!
Mas pronto... aceitemos a nossa incapacidade e... viva a T-shirt!

12.6.09

os símbolos do meu quotidiano

Uso-as por razões profissionais, quem diria...

:)
:(
:-o
:-|
:-P
:-D
;)

... raios das carinhas!

Enganos


Gostava de perceber como é que se consegue viver a escapar-se entre mentiras, a preparar o próximo subterfúgio.

Admiro a tua capacidade, amiga, para não te saltar a tampa com este tipo de pessoas. Eu não as suporto e nisso sou muito grrrrrrrrr....

Se fossem tão boas como nós a montar esquemas, estavam feitas.



Ainda bem que não temos jeito.

9.6.09

hoje

soube que tenho de fazer obras em casa.

Boa.

6.6.09

ai

que tom negativo o deste blogue.

Upa!

em modo menor

li José Luís Peixoto.

Lembrei-me da minha mãe e angústia de ter sido aprisionada numa doença que diziam incurável.

Acho que foi o desejo de viver por mim que a curou. Com ajuda por aqui e de Lá. E, claro, o sempre poderoso querer!

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

5.6.09

4 minutos verticais

Quando entro num avião, olho os outros passageiros e tento ler o meu destino. Quando me sento, sufoco - o espaço é pequeno, o avião uma caixa fechada de aço subitamente sem portas e janelas que nunca abrem. Atenta à menor estranheza no ruído dos motores, as conversas dos amigos passam ao lado e as palavras na revista de bordo confundem-se. Olho os outros e tento ler o meu destino. Dizem o que fazer em caso de urgência - uns dormem já e outros calmos, sem sobressaltos, conversam. Mas há aqueles que, como eu, vigiam. Pessoas de todas idades, vidas de todos os géneros juntam-se nesta caixa. Algumas para quem esta viagem é um começo cheio de expectativas, outras para quem é um regresso indesejado, talvez. Para outras ainda, uma rotina. Rodamos com rapidez na pista e separamo-nos do chão que nos protege num pequeno impulso. Olho-os de novo e tento ler o meu (nosso) destino para esta viagem, enquanto as janelas se enchem apenas de azul e branco, azul, azul, branco. Pelo menos isso, que a noite torna o medo mais pesado.Azul, branco, azul. E o sinal de desapertar o cinto que tranquiliza.




Alguém terá olhado os outros passageiros neste momento e visto o destino no fim do mar?

2.6.09

sleeplessness III

Apeteceu-me pôr aqui um trailer, mas este filme assusta.

Qual das personagens eu seria?




Larry.

1.6.09

... e ainda agora

...esta sensação que decidiu instalar-se na minha vida. Raiva!

A propósito de marionetas

Numa conversa sobre marionetas, lembrei-me dos espectáculos de robertos que havia há muitos, muitos anos na praia da Costa. Montavam um biombo na margem daquele areal imenso e eis que aparecia um barbeiro, um toureiro e um touro. Devia haver mais personagens, mas é só destas que me lembro. Sentávamo-nos na areia a olhar a movimentação que envolvia sempre alguma agressão sob o sol escaldante - "Toma, toma, toma". Pauladas atrás de pauladas. As vozes eram muito estridentes o que fazia com que nem sempre se percebesse o enredo, mas era movimentado e alegre, com pauladas que tinham o seu quê de teatral no som a madeira.

E eu tostava, a comer batatas fritas no tempo em que tudo era certo.

Ainda hoje, quando caminho sobre passadeiras de madeira numa praia, olhos para os pés e vejo-os com 5,6 anos na Costa, entre batatas fritas, robertos e um enorme medo das ondas.

31.5.09

Hoje

o brilho nos olhos nuns passos de tango
"Os teus olhos dizem tudo", sempre me disseram. "É como se gritassem tristeza, desejo, desilusão, alegria". Sempre, sempre me disseram.

Mas acho que os meus olhos se calaram. Ou se encheram de nuvens.

Será que há retorno?

30.5.09

hoje

é um dia de raiva.

Só volto a escrever quando isto me passar

29.5.09

Os mastros dos barcos atracados no cais balançam ao vento e na ondulação suave. Junto aos mastros, as cordas com nomes que herdaram das velhas naus e barcos de piratas ora se afastam, ora se entrelaçam.

E ouvem-se estes sons de xilofone distante. Uns mais madeiras, outros metais. Plim, ploc, plão, plim.

Todas as manhãs.

sleeplessness II

e a conversa acordou palavras sombrias



repetiu-as toda a noite

até que fossem apenas sons indecifráveis



o amanhecer misturou-os com pássaros, passos, depois conversas

até que alguém riu alto

e os silenciou

Quem bloga o quê

A minha amiga L. telefonou-me ontem horrorizada por ter descoberto que, a coberto do anonimato, se escrevem coisas terríveis nos blogues - maledicências, traições, enganos.

Pois. Há quem se esconda sem pudores.

28.5.09

E tu, olhos de homem-menino, que me contas hoje?

Talvez uma história de encantar, onde somos verdadeiros e o amor é o templo maior.

Talvez uma história de encantar em que me queres. Mesmo que a raiva saia da minha boca e da minha pele, porque como em todas as histórias de encantar vês para além do que não sou. E queres o que sou para além dos efémeros.

Conta-me essa história, olhos de homem-menino, que eu vou aninhar-me em ti, ouvir-te, respirar fundo e fechar os olhos.

26.5.09

amanhã...

... vai ser Verão.

Boa notícia.
Sometimes





Sometimes you can't make it on your own
Is it getting better / Or do you feel the same / Will it make it easier on you now / You got someone to blame / You say...

One love / One life / When it's one need / In the night / One love / We get to share it /Leaves you baby if you don't care for it

Did I disappoint you / Or leave a bad taste in your mouth / You act like you never had love / And you want me to go without

Well it's too late / Tonight / To drag the past out into the light / We're one, but we're not the same / We get to / Carry each other /Carry each other/ One

Have you come here for forgiveness / Have you come to raise the dead / Have you come here to play Jesus / To the lepers in your head

Did I ask too much / More than a lot / You gave me nothing /Now it's all I got / We're one / But we're not the same /Well we hurt each other / Then we do it again

You say /Love is a temple / Love is a higher law / You ask me to enter / But then you make me crawl / And I can't be holding on /To what you got / When all you got is hurt

One love /One blood / One life / You got to do what you should / One life with each other / Sisters / Brothers / One life / But we're not the same / We get to / Carry each other /Carry each other


One, U2

hoje no carro que voa

25.5.09

Ai,


que



RAIVA!!!

24.5.09

marcas

People have scars in all sorts of unexpected places, like secret road maps of their personal histories, diagrams of all their old wounds. Most of our old wounds heal, leaving nothing behind but a scar, but some of them don't. Some wounds we carry with us everywhere and even though the cuts long gone, the pain still lingers.

What's worse, new wounds which are so horribly painful or old wounds that should have healed years ago and never did. Maybe our old wounds teach us something, they remind us where we've been and what we've overcome, they teach us lessons about what to avoid in the future. That's what we like to think, but that's not the way it is, is it? Some things you just have to learn over and over and over again.


Grey's Anatomy

raiva

In life we are taught that there are seven deadly sins. We all know the big ones... gluttony, pride, lust. But the thing you don't hear much about is anger. Maybe it's because we think anger is not that dangerous, that you can control it. My point is, maybe we don't give anger enough credit. Maybe it can be a lot more dangerous than we think. After all when it comes to destructive behavior, it did make the top seven.

So what makes anger different from the six other deadly sins? It's pretty simple really, you give into a sin like envy or pride and you only hurt yourself. Try lust or coveting and you'll only hurt yourself and one or two others. But anger, anger is the worst... the mother of all sins... Not only can anger drive you over the edge, when it does you can take an awful lot of people with you.


Grey's Anatomy

20.5.09

hoje

Depois de poucas horas de sono, acordei cansada de tentar ser tudo e não conseguir ser nada. Cansada das ausências e dos excessos que são apenas agora os ritmos da minha vida.

Chorei. Farta dos espaços, apeteceu-me sentir o vento forte na cara, o cheiro do mar e dos campos. Farta das palavras, apeteceu-me aninhar-me num refúgio de silêncios cúmplices.

Queria que a vida parasse. Que o relógio deixasse de marcar as horas. Só por um pouco. Só por um dia.

E lembrei-me deste poema.

Faltava aqui este poeta que marcou a minha vida com as suas palavras. O amor que me fez desejar.


Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como um bosque.

É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas na luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.


Eugénio de Andrade

15.5.09

até parece

Esta canção tem andado a "perseguir-me". Gosto muito, mesmo muito dela, por isso aqui está.

4.5.09

é que há pessoas...

... que são mesmo filhas da mãe.


Só não lhe rogo uma praga porque sou boa pessoa.


Mas que me apetecia, lá isso apetecia.






Pessoa-coisa.

3.5.09

esta noite, boa conselheira, disse-me...

...não persistas.



É preciso saber desistir, encontrar o nosso respirar e partilhar com quem nos espera os momentos que o Tempo concede.

30.4.09

peguei num CD esquecido e hoje...

... esta canção no meu carro que voa e a manhã que crescia sobre o Tejo.



All At Sea - Jamie Cullum

the travelling Arwen

Ontem, a Arwen esteve no Globe Theatre. Bloody hell!

26.4.09

Mais um poeta de Abril... hoje sobre o amor desejado

(...)
E quanto mais te perco mais te encontro
morrendo e renascendo e sempre pronto
para em ti me encontrar e me perder



Manuel Alegre

25.4.09

Sophia em Abril

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra


Sophia de Mello Breyner Andresen

Hoje estou a exorcizar I

Não gosto quando as pessoas, ao comentar blogs e podendo optar pelo nome verdadeiro ou um nick, ainda escolhem ser anónimas. Já fiz isso e não gostei de mim.

24.4.09

Mortalidade

É duro confrontarmo-nos com a doença. Ou mesmo com a possibilidade de ela lá estar. Hoje fiz um exame de rotina que qualquer mulher odeia. Ao contrário das outras vezes (ainda não muitas, felizmente) em que estava completamente descontraída, hoje senti terror a crescer dentro de mim. Talvez fragilizada pelo cansaço da forte constipação e pelo desgaste do trabalho, as lágrimas teimavam em querer saltar enquanto esperava a minha vez . Em frente, um namorado/marido acariciava a mão dela - aflita com qualquer resultado - reforçando a minha solidão e o meu medo (e outros medos).

Se hoje a médica me tivesse dito Tem aqui algo que deve ser analisado eu responderia, Ah, pois. Era de esperar. O corpo deu de si.

Não disse.

Aqui fica a promessa de ir tratar melhor de ti.

23.4.09

Soube-me bem...

... no mar, nas areias

e em Lisboa.




A vida (ainda) pode ser suave.

E hoje...

E hoje contou-me de tristezas. Falou pouco, mas os olhos-apenas-de-homem, de repente, rasos de lágrimas.

Se eu soubesse o que dizer...

38.7

A vida.

Ontem e hoje, quase insuportável.

Corpo moído e alma desgastada.




Preciso da superfície para respirar!

21.4.09

Ausências

De repente a ditadura do tempo instalou-se e tornei-me escrava da minha ausência.

Num sono inquieto, a vida mostrou-me em sonhos o que temo. No que mesmo dia em que sonhei que morria, alguém me matava.

E eu... ausente. Mas apenas de corpo. Tranquila.

Agora, esta ausência tem sido desassossego.

18.4.09

Segunda vida II

- E esse diálogo foi onde?

E sorriu para mim com olhos de homem-menino.

17.4.09

Segunda vida I

- Hello, hotstuff. Wanna fuck?
- Not interested, sorry.
- How do you fuck on this game?



O seu-meu primeiro diálogo. Melhores dias virão para Arwen, de corpo e alma fechados.

My lord Aragorn.

16.4.09

Sleep deprived

Hoje percorri todo o dia como se de um sonho se tratasse. Sonâmbula. E foi hoje que iniciei uma segunda vida. De cabelos longos e olhos verdes, visto-me da cor favorita dela, a minha outra-primeira-vida.

Hello. I'm Arwen.

Não durmo

E mais daqui a pouco, como é que vou acordar?

15.4.09

When a lot is too much

Sempre admirei a persistência de algumas pessoas face às relações. Mesmo nas piores circunstâncias insistiam e, na maioria das vezes, saíam vitoriosas. Às vezes venciam pelo cansaço, mas venciam. Nisso fui sempre uma desistente. Ao primeiro atropelo, oops, adeus.

14.4.09

Evolução

Hoje alguém me disse que isto de eu não conseguir /não me apetecer trabalhar revela uma grande evolução da minha parte.

Também quero

Pois bem, mudei a rotina.
Prometia-me há já uns anos, e falhava.
Até que os dedos pediram, e assim foi:
Estou a ter aulas de piano.
Tinha esse sonho, eis-me a fazer por ele.
Há qualquer coisa no som deste instrumento que vai directamente a sítios que não sabemos apontar.
Não é coisa simples, para os dedos e para o cérebro.
Estou ainda na fase de aprender a ler música, e enquanto experimento tocar uma ou outra coisa percebo que traduzir para o cérebro que as duas mãos devem fazer coisas diferentes é um dos primeiros e mais difíceis passos.
Mas assim é melhor, se fosse fácil cansava mais.
Já começo a perceber umas coisas, por força do professor extraordinário que me está a acompanhar.
Deve ser penoso para quem toca tão bem como ele ver duas mãos de cimento em cima das teclas dele.
Especialmente porque teve anos a aprender com a Maria João Pires.
Deve estar orgulhoso do salto que a carreira dele deu.
Orgulhosíssimo.
Estou contente comigo.
Terça feira às onze horas lá terei nova aula.
Até lá tenho trabalhos de casa para fazer.

Agora só falta um pianinho aqui em casa.
Porque praticar na mesa é estranho.
E não tem definitivamente o mesmo som.


Bruno Nogueira, http://corpodormente.blogspot.com/

E pronto cá está.... a vontade de fugir!

Falta a Manuela Azevedo a dar um toque especial, mas pronto.


Babylon - Zeca Baleiro

Sem sentido

Às vezes achamos que a vida não nos faz justiça e encontramo-nos, sem saber muito bem como, por caminhos e sentimentos que nunca quisemos para nós. Não é que desejemos algo grandioso; só sentimos que não estamos a viver o que (talvez) merecemos.

Cá está... vontade de fugir


Babylon - Zeca Baleiro

13.4.09

Hospital, segunda-feira de manhã

...de tanto bater, o meu coração parou.

12.4.09

Avô I

Quando eu nasci, o meu avô tinha 40 anos. Comecei a falar muito cedo e ele, encantado com esta neta-quase-filha, fez-me um livro de cartolina com imagens e palavras recortadas de revistas. Ainda me lembro de algumas - um pacote de Omo, um ferro de engomar, meninos a brincar, uma televisão. Comecei cedo a falar, mas tarde a andar (por isso hoje falo muito mas tropeço ainda mais) e assim que pude caminhar levava-me e dar grandes passeios por Lisboa. - Olha que a menina não pode andar tanto!, desesperava-se a minha avó. Mas todos os domingos lá iamos dar um passeio, viamos tudo, eu perguntava sobre tudo e ele respondia. Mais que o meu pai, ele era o meu herói.

Hoje, o meu avô estava muito triste...

Lembra-se de como me explicou que o bacalhau não era um peixe espalmado?

Forever Sting

Ai, que vício!
Descobri, ainda por cima, que estas canções fazem parte da banda sonora de um filme que adorei.


Angel Eyes - Sting

10.4.09

Heal that sucker

Às vezes, por diferentes razões, deixamos de saber exactamente quem somos. Perdem-se pontos de referência e agimos de forma descontrolada, disparando em todas as direcções na procura de razão. Isso acontece-me sobretudo quando me sinto ferida. Estou a aprender (espero que não demasiado tarde) a calar e reflectir antes de, ou mesmo em vez de, pegar nessa arma. Mas não desisto de procurar a causa da ferida.

Not all wounds are superficial. Most wounds run deeper than you can imagine. You can't see them with the naked eye. And then there are the wounds that take us by surprise. The trick with any kind of wound or disease is to dig down and find the real source of the pain - and once you've found it, try like hell to heal that sucker.

Grey's Anatomy

Páscoa II

Não resisti.

Páscoa

Gosto da Páscoa. É uma época de sofrimento e penitência que sempre me interessou. Jesus que duvida perante o seu martírio, Judas que trai, se arrepende e suicida, Pedro que nega Jesus, Pilatos que condena um homem sem o querer. Os estudos feitos sobre esta época revelam um contexto sócio-político complexo e conflitos que estão na base de lutas religiosas que ainda hoje nos rodeiam.

A propósito da morte de Jesus foram compostas e pintadas obras geniais, de uma força e violência terríveis. Das melhores de sempre.





Sem ser das mais conhecidas ou impressionantes, gosto desta pintura de Goya.

9.4.09

Lately I've been learning not to trust people.
I'm glad I failed.



In "my blueberry nights"

Porque é Abril

Assisti no CCB. Lembrei-me de colocar aqui esta homenagem em três pianos.

Poema antigo

Há muitos anos li este poema, que hoje lembrei a propósito de....

Viajo no teu corpo. Só teu corpo?
Mas quão breve seria essa viagem
Se no limite dela a alma nua
Não me desse do corpo a certa imagem.


José Saramago

Café

Vou dar a Nespresso armada ao fino e pedir à minha velha cafeteira que volte para preencher a cozinha com o maravilhoso, inegualável e insubstituível aroma do café. Preciso dele para me aquecer as manhãs.

E sou

E sou o dia, sol, riso, conversas, danças, mãos dadas, beijos furtivos, viagens de perto ou longe.

E sou a noite, silêncio, melancolia, música que embala, azul vestido, amor feito devagar.


Gosto de ser dia e de ser noite.

Incapaz

Pela primeira vez, a vida pessoal está a incapacitar-me para a vida profissional. É uma sensação estranha e chega a ser desorientadora.

Sempre pensei que quando isto acontecesse fosse pela intensidade de uma relação, por um desvario bom.

Mas afinal...

Não consigo trabalhar!!

Azul

Vou dizer nunca foi amor. desculpa.
Vais dizer não há mais espaço para o desamor, o (des)olhar, o lamento.
Vou dizer tempo. desculpa.
Vais dizer não existe afinal a luz que parecias ter em ti.
Vou dizer gostava de ser outro. desculpa.
Vais dizer podia ser grande. podia ser maior.
Vou dizer desculpa o sofrimento. desculpa a mentira.


E a tua boca vai calar-se porque te cansaste das palavras.
E eu digo dias. noites. corpo. e o mais que fica por viver.

Foi

Entregaste-me uma pequena pasta tamanho A5. Lembras-te? Daquelas onde se guardam desenhos e se atam com fitas pretas... Adivinhei o que continha. Eram folhas e folhas, pequenos textos, poemas... tu, boca, sombra, acolhe-me... palavras de desejo, palavras de amor. De repente, mentias, mentia, mentíamos. Inventávamos trabalho, reuniões inexistentes, não cumpriamos horários, obrigações. Davas-me a mão na rua e eu desprendia-me para te proteger. Tu não tinhas medo. Arriscavas. Arriscaste tudo. E mais palavras. Beijos. Camas revoltas. Livros. Música. As fotografias. Flores deixadas por toda a parte. Beijos atrás de portas, atrás de jornais abertos, nas esquinas de museus.

Culpa. Nos teus olhos verde-mar cresceram florestas sombrias. Amo-te, disseste-me. Espera por mim. Culpa. Culpa. Sempre esta eterna culpa.

8.4.09

Eu acredito muito na linguagem do corpo. A orientação que damos ao tronco e às pernas quando nos sentamos, a intensidade com que tocamos no(s) outro(s), diz mais que palavras ditas ou escritas. O beijo é outra manifestação de afecto que não deixa margem para enganos. Não é preciso que sejam muitos... mas é importante que... Seja em amante ou amigo é fácil "vermos" através deles.

Hoje recebi o pior beijo de que tenho lembrança. Porque não fugi logo dali?

7.4.09

Ai, o que eu gostava

de ter feito isto

Ainda a cantar

A música e as canções suscitam-nos sentimentos diversos. Umas ouvimos e fechamos os olhos a absorver tudo, outras cantamos de forma apaixonada (mais o meu género, mas saiba-se que odeio karaoke).

Sempre vivi entre pessoas que gostam de cantar. E adoro cantar. Em pequena, a caminho da praia ou em qualquer outra viagem mais longa, cantava à maluca com os meus pais. Em criança só adormecia com canções e o o meu avô gravou em bobinas as minhas melhores interpretações (fantástica uma canção francesa cantada do princípio ao fim sem eu saber uma palavra de francês :) )Aprendi Inglês a transcrever letras e a cantar.

Mais velha, e já num canto mais sério, conheci e interpretei muitos compositores e algumas obras em línguas estranhas. Lembro-me de umas peças de Bela Bartok que nunca soube exactamente o que queriam dizer, mas que eram melodicamente de uma extrema beleza. Mesmo sem saber o que significavam, dava-lhes os meus sentidos.

É preciso perceber uma canção para sentir a sua beleza? Acho que não. Talvez, nesse caso, o sentido que lhe damos a torne mais significativa e especial.

Será então de clicar no que eu descobri?

Fevereiro

Passeou de manga curta enquanto soprava um vento gelado.
Quando deu pelo frio, caiu na cama doente e delirou durante dias.
Então, ainda não era Verão?

Num bar... em Lisboa


My One And Only Love - Sting

5.4.09

Inodoro e incolor

Ontem alguém me dizia que não queria terminar a sua vida amorosa - porquê? ainda tens tanto para amar! - amarrado a uma relação insípida. Mais valia desistir do corpo e do coração de vez.

Teimei, argumentei que é importante persistir.

As razões eram demolidoras.

Acabei por concordar.

Conversas

Estive num jantar.

Falou-se de religião e economia. ritmos de trabalho. pudins de ovos.

Às vezes esqueço-me de como é bom conversar e ouvir risos espontâneos.

- Olá. - Estás bem? Tu estás sempre bem.

Pois dançavam

Tango

Um amigo prometeu-me hoje que vamos aprender tango como deve ser.

Os homens dançavam uns com os outros, sabias?

Coreia

Tenho uma prima da minha idade a quem foi diagnosticada há uns anos Coreia de Huntington.

A doença caracteriza-se existencialmente por descoordenação na marcha, na fala e alterações no olhar. Com a progressão da doença os doentes têm dificuldades na execução da vida diária, como por ex. impossibilidade de controlar o movimento, andar a pé, de deglutir os alimentos e dificuldade na linguagem.

Lembro-me bem dela em criança. Sempre linda, de longos cabelos negros. Invejava-a.

O marido separou-se dela quando lhe foi diagnosticada a doença. Alegou incapacidade para lidar com a situação. Curta esperança de vida.... True love...

Com o tempo, tornou-se cada vez mais dependente dos outros. Saía da sua casa com vista para o mar e corria pela marginal sem saber onde estava.

Agora, já não se levanta para ver o azul da foz do Tejo, nem sente a brisa da maresia. Está presa a uma cama até que o corpo desista.

Linda. De longos cabelos negros.

2.4.09

Pausa

Vou tentar acalmar o meu coração e pacificar-me com a intimidade que tornamos pública.


Uma pausa de semibreve. Chapelinho ao contrário de um pequeno círculo cheio de tempo.


Um... dois... três... quatro.

1.4.09

Cantar

O canto fez, durante muito tempo, parte integrante da minha vida. Cantava na voz mais aguda. Esta experiência faz-me estremecer perante certas obras. Oiço a voz que era a minha e como ela se conjuga com todas as outras. Hoje imaginei-me aqui.


Berliner Messe - Kyrie - Arvo Pärt


Lindo.

Sonho II

É uma rua estreita da parte antiga de uma cidade. Chove. Oiço a tua voz chamar por mim e espreito a todas as janelas. Lá dentro há uma claridade branca que me cega e, de repente, pessoas que olham para mim e me acenam para entrar. Não as conheço. Não, não é aqui. Não é aqui. A rua é feita de lama onde escorrego. Nas virilhas, uma dor que me impede de prosseguir. Páro para respirar. Acordo.

31.3.09

O corpo que se desfaz ao toque


A dúvida que persegue e se renova


Duas sensações que agora preenchem: uma que desejo
outra que estranho

Neste confronto, qual vencerá?

18.3.09

Traz outro amigo

Quase nunca ando de transportes públicos. O carro, que se torna um companheiro diário, protege-nos dos perigos e desconforto desse mundo exterior. Protecção-isolamento, é o que é.

Ontem ao entrar atabalhoadamente num autocarro, com o ar (e a realidade) de quem já não sabe tirar um bilhete, oiço um senhor no lugar da frente que canta afinado não percas tempo que o vento é meu amigo também.

E lá fui empurrada para a parte de trás, com aquela canção a soar entre quem lhe era indiferente. Não para mim. E cantei baixinho em terras,em todas as fronteiras, seja bem vindo quem vier por bem
Calmo. Concentrado.

Fala de forma serena num tom grave

e gosta de namorar em Lisboa

No MSN a mensagem que o identifica

Quem dorme à noite contigo?

Sorrio. Pois.

14.3.09

Às vezes gostava de te olhar

e ver, de repente,

a minha vida cheia de tudo.

9.3.09

Era uma vez...



... uma concha azul. Desta concha não se ouviam as ondas, mas antes sussuros, pequenas histórias inacabadas e canções de antes. E risos. Risos como os de infância, que sossegam.


Era uma vez uma concha azul...


Foto Lotus8 em Flickr

Dança... outra vez

Há muito tempo que não dançava com o meu amigo-dançarino-por-excelência. Pegou-me nas mãos e apertava, entrelaçava, largava e tornava a agarrar... E eu respondia aos comandos da mão, ao toque na costas - para a esquerda, para a direita, troca, roda...Às vezes mais concentrados, outras vezes rindo da nossa atrapalhação, lá fomos de sala em sala a dançar... sempre a dançar... sem...pre... a... dan..... çar.....

5.3.09


Agora deitava-me aqui, olhava o mar e descansava.

2.3.09

até que


queiras mergulhar


no sonho-mar de mim

estás com um ar tão triste...

eu respondo

deserto. noite. frio.

e esta absurdamente teimosa vontade de abraçar.

1.3.09

Have you seen the bright lily grow? por Andreas Scholl

Have you seen the bright lily grow? por Sting

Demasiado tarde

Se soubesse que aquela tarde-feita noite seria a última, ter-me-ia perfumado com as melhores essências e marcado o caminho para te guiar até mim. Os acordes perfeitos soariam suaves e envolventes. Um calor cor de sol iria aconchegar-nos... ouvirias num sussuro as palavras sentidas...

... e eu iria gravar essa tarde-nunca noite no meu corpo.
Sometimes the greatest journey is the distance between two people.

in The Painted Veil

sleeplessness

... o amor também pode nascer
de onde menos esperamos ...


Nuno Júdice

Blogues

O que é um blogue? De entre as minhas relações mais próximas só uma pessoa tem blogues que actualiza regularmente. Diz-me que pode ser um amigo, um diário, que é catártico. Concordo com a catarse. Falo de blogues como este (e muito melhores que este) onde se escrevem coisas que dantes se guardavam em folhas de papel.
Estão na moda.
No entanto têm esta coisa do anonimato e dos nicks, que é moderno, mas que às vezes incomoda.

Outras palavras

Gostava que chegasses quando eu menos esperasse. E me desses amor em pequenos gestos. Os pequenos gestos são os maiores, sabias? E as palavras sussuradas as que ecoam mais alto. Há quem não saiba disto. E fira no que diz e faz como se brandisse uma espada.

Todas as línguas

amigo seguidor,

todas as línguas terão palavras brutais;


devastating



é das mais terríveis que conheço.
- Não vês? NÃO VÊS? - Sim, vejo. Não me digas mais nada. Tenho que agir e a acção custa.
- Cobarde! COBARDE! Sim, sou. Não me digas mais nada. Tenho que agir e a acção custa.
Custa, mas ajo. Não posso mais. Grito-me ao ouvido e fico surda com as minhas próprias palavras.

26.2.09

The A word

Conheço quem não goste da palavra "Adeus". Compreendo. Pode ser sentida como um "nunca mais", como um "para sempre sem ti". Pode ser a morte. Acho que tem um significado, qualquer coisa de teor religioso, de "para Deus"," dedica-se a Deus", não sei bem... Eu já disse algumas vezes esse adeus definitivo. Sim... Disse-o, por mais estranho que pareça, para me proteger. Como um rasgão violento a partir do qual nada mais nos resta senão avançar, arriscar de novo. Já o disse de forma impetuosa, na angústia de um momento doloroso. Já o disse no culminar de pequenos adeus sussurados, pensados, sentidos. Já o disse num dia em que não soube quebrar os silêncios com as palavras de amor que me sufocavam.

25.2.09

A última dança

Em que rodopio deixei de ser vontade para ter que pensada como uma prioridade? Danço em passos lentos, nesta madrugada que nunca mais se faz dia.

Dança VI

Tanto que havia de dizer sobre a dança, hoje que um amigo escreveu sobre o que para mim há muito era evidente.

E lembrei-me deste filme também.

Dança V

Este meu gosto pela dança é genético, já se viu.
Mas eles também me influenciaram. Bebia-os, colada à televisão, quando ainda mal andava.

Dança IV

Já me apaixonei por um par. Apaixonei-me perdidamente num rápido-rápido-lento.
Já se apaixonaram por mim a dançar um tango face a face.

Dança III

Quando eu tinha uns 14,15 anos a minha avó ensinou-me a ser conduzida. Dizia-me que fazia parte da formação de uma senhora.
Não sei se serei uma senhora na acepção da minha avó, mas os meus pares sempre me elogiaram a "leveza". Resultou, vó.

Dança II

A minha avó contava-me que quando a minha mãe dançava toda a gente ficava parada a olhar. Gostava de ter visto a minha mãe no vestido com saia de tule, que usa naquela fotografia, a rodopiar pelas salas. Ela tinha um par favorito, que não era o meu pai (o meu pai não gosta de dançar). Dançavam horas e horas, até de madrugada. Ele nunca a deixava e vibrava de prazer naquelas noites quentes de Lisboa.

Dança I

Ele pega na minha mão e subimos para o estrado. As horas de prática, cheias de erros e repetições, vão agora ser agora postas à prova. Ali. Entre os peritos. A música começa e o corpo vibra, antecipando o movimento. Ao compasso certo, os braços erguem-se no ar, num gesto de sensualidade e de convite. As pernas avançam e os olhos cravam-se num desafio de conquista e desprezo nesta dança, que é também teatro. Os pares agitam-se, imitando-se nos gestos de uma coreografia bem marcada.Rodeia-me, abraça-me, rodeio-o, abraço-o. Todos os corpos de rodeiam e se abraçam, numa loucura de festa e calor. Dançamos outra e mais outra. Os passos e sapateados marcam com cada vez mais certeza o ritmo no pequeno palco onde ficamos em destaque. No final, um beijo porque o corpo pede. Naquele momento podemos sair de nós e sermos os amantes daquele cantar que dançamos.

23.2.09

Carnaval III

Há uns Carnavais atrás, durante uns quatro anos seguidos, juntámos um grupo de amigos para festejar este dia. Todos nos mascarávamos. No primeiro ano lembro-me que havia um mosqueteiro, uma bruxa, uns hippies, um "Máscara" de cara verde, uma corsária no feminino (eu), um árabe. No segundo ano, outras máscaras surgiram e eu vesti-me à anos 20. Adorei!! No ano seguinte fomos mais "venezianos" - vestimo-nos todos de preto e comprámos uma caraças pretas e prateadas, lembram-se, amigos? Não nos deixavam entrar em lado nenhum sem mostrarmos as caras...No ano seguinte repetimos o mesmo género - caras e cabelos dourados sob um fundo negro. Lindos. E eu dava ideias, comparava adereços... Vingava a minha infância.

Carnaval II

A minha avó era especialista em vestidos de noiva. Por isso, em casa dela, atrás de um pesado reposteiro de flores, havia saiotes de tule e de pano branco, dos quais eu fazia vestidos de fadas e princesas quando me apetecia. Subia e descia as escadas, rodopiava... rodopiava até ficar tonta e o "vestido", de tanta roda que tinha, ficava quase na horizontal. Punha colares e brincos - havia um de cristal que brilhava tanto!.... Criava mundos de fantasia, embaladas pelas histórias que a minha avó me contava. Era o meu Carnaval. Secreto. Solitário. Sonhador.

Carnaval I

"Não quero, vó..." murmurei baixinho, com uma voz chorosa. Nunca me mascarei a sério em criança por causa disso. Os meus avós levavam-me sempre a grandes concursos de Carnaval no antigo cinema Monumental, onde dezenas de crianças desfilavam com todo o tipo de máscaras, das mais simples às mais requintadas. Lembro-me de uma Cleópatra, toda em dourado, com uns cabelos muito negros. Era linda! E ganhou, claro.
A minha avó, modista de profissão criticava as espanholas. Tinham uns folhos muito caídos, que não "armavam"... Um dia disse-me que me faria um vestido de espanhola como deve de ser. Abri os olhos e imaginei-me em vermelho e preto, de saltos, com cauda enfolharada e baton... "Mas quando disserem o teu nome, entras no palco, dás uma volta e dizes olé com garra!" Definhei. Embora sempre tivesse gostado de cantar e dançar frente ao espelho, a ideia do público aterrorizou-me. Não era capaz. Não quis.

18.2.09

Nos últimos dias lembrei-me muito deste filme, onde o bem e o mal se confundem. Passa-se no Alaska, onde irei um dia.

17.2.09

Leve


E se eu entrasse num quadro de Chagall e desatasse a flutuar?

16.2.09

Espreito II

Subitamente o teatro que está para lá daquela porta também faz parte de mim. Sinto o nervoso e a ânsia de uma branca. Sinto a vontade de fugir e o desejo de começar. Olho o público."Merda". Espreito pela frincha da porta e vejo os actores que se preparam. Inspiro... Fecho os olhos. Vai correr tudo bem, vais ver.

Espreito

Ela foi espreitar. Encostou a cara ao vidro opaco. Num lado. Depois noutro. Encolheu os ombros, "Não vejo nada!" "Não!", gritámos, "Tens que espreitar pela frincha da porta."Rimo-nos da situação. Há pessoas com quem o riso desponta de um tudo e de um nada. Com quem podemos espreitar e ver o lado bom e o lado mau da vida. Sem medos.

3.15 da manhã

10.2.09

É um castelo. Sinto o gelo das lajes do chão, oiço o eco dos meus passos. Devagar, encosto o meu ouvido à parede e oiço a "volta" dançada por Isabel I e o seu amante, oiço o choro de Inês que antecipa a morte, oiço a armadura de Afonso, oiço os "King's Men" no Mercador de Veneza. É um castelo e sei que há dois reis que se vão enfrentar. Atrás de um reposteiro, observo a preparação para uma batalha e inspiro a coragem deste rei que olha pela janela o nascer do dia que mais teme. De repente, é a mim que vestem para o confronto. É a mim que enrolam o corpo em faixas para me vestir uma armadura que afinal não tenho quando me encontro face a face ao meu adversário. Não vejo a sua face, escondida num elmo. Que frio é este, tão estranho? Subitamente percebo. É o frio do aço que me atravessa. Acordo.

9.2.09

(Sor)rio

O tempo está insuportável. Dias a fio de cinzentos começam a pesar e alimentam o desânimo de um quotidiano que nos "mastiga". De repente na linha do horizonte surge o sol sobre o rio Tejo que, num instante, se faz azul, um pouco mais escuro que a nesga de céu que se abre. A foz parece sorrir com as suas cristas de espuma. Acho que sussura, "A tua vida é boa...". Pois é. E sorrio com o rio.

3.1.09

Atravessar a noite

E pronto. Passaram-se as festas e ainda bem. Tirando o facto de ser uma época em que o trabalho abranda na acção (nem sempre no pensamento, confesso), estes dias não me costumam trazer grandes alegrias. Minto. Ri-me bastante na noite de fim de ano e houve quem se risse comigo. Já quase me tinha esquecido dessa sensação - a alegria partilhada a propósito de uma qualquer tolice.
Ontem estava de ressaca de festas e fui assaltada por uma enorme nostalgia e algum nervosismo pela necessidade de preparar trabalho para a semana que se aproxima. Não correu bem. De facto correu tão mal que às quatro da manhã estava completamente desperta... Peguei então num livro que trouxe emprestado de casa de uma amiga e li os primeiros contos. Uma ideia queimou-me - "as noites que atravessámos de mãos dadas". Ficou esta frase. Lateja. Quem me vai dar a mão para atravessar as noites que virão?